ANTÓNIO LOBO ANTUNES

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 :: Auto dos Danados (1985)                                                             << voltar ao menu livros

 

     

3 artigos por

 

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Alfredo Monte

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Maria Lúcia Wiltshire de Oliveira

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Nuno Barbosa

 

Alfredo Monte

Lirismo e realismo ao modo Lobo Antunes

 

edição brasileira da Best Seller, anos noventa

 

MOTE

Para o grande pensador Georg Lukács, o ponto fundamental da épica narrativa era a questão da possibilidade e da necessidade da ação do herói: para que ela fosse possível e necessária o mundo deveria fazer sentido.

Na época burguesa, dificilmente há a sensação de que o mundo faça sentido. Ou o seu sentido é acumular capital? O herói do romance, a grande arte burguesa, procura, então, o sentido dentro de si, e o gênero narrativo descamba para o lirismo (descrição de estados de alma), uma vez que a realidade íntima do herói entra em confronto com a realidade exterior. Ou seja, a gente se acha demais, e o mundo de menos, árido e pobre.

Observando a trajetória da ficção contemporânea, vemos como diversos narradores, esmagado pelo peso sem sentido do mundo burguês, deixaram-se levar (via experimentação linguística ou via introspecção extrema) para um lirismo radical, deformando o imperativo épico de “representar a realidade”.


O CASO LOBO ANTUNES

O português António Lobo Antunes, em Conhecimento do Inferno (1980), fornece um belo exemplo do dito acima. Seu texto é um magma de lembranças, cenas e imagens incríveis que fragmentam a narrativa e deixam no leitor a sensação de estar acompanhando um vulcão em erupção, um grande talento sem dúvida:

A rapariga, imóvel, muito direita, a apertar contra o peito o seu saco de plástico, consentia que os anjos lhe pousassem nos ombros, nos cabelos, nos braços, tal os pássaros nas estátuas dos parques, empoleirados em heróis de bronze como a roupa nos cabides. Se não agisse depressa o asilo transformar-se-ia num aviário celeste, repleto de roçar de túnicas e de zumbidos siderais, e dezenas de homens alados invadiriam a Urgência, soprando-nos na nuca leves risos idênticos às borbulhas das guelras, que se dissolvem em estalos verdes de musgo.

–Porque não lhe dá uma injecção contra os anjos? –insistia a enfermeira. -Tem de haver uma injecção contra os anjos como há raticida, pó das baratas, remédio para o bicho das vinhas. Os anjos são mais fáceis de matar do que o bicho das vinhas.

E ele imaginou por um instante, enquanto escrevia na ficha uma receita qualquer, anjos a agonizarem no soalho, suados e pálidos, chamando-o com as pupilas de vidro baço dos moribundos, que se despem a pouco e pouco de expressão e de cor até se assemelharem a cristais ocos, sem reflexos, idênticos aos duros olhos de plástico dos bichos empalhados. Imaginou as camionetas de lixo da cidade carregadas, ao fim da noite, de astronautas bíblicos, de ossos porosos de água e barbatanas de mergulhador, acumulados uns sobre os outros em atitudes de náufrago, imaginou um jovem querubim enforcado num algeroz, raspando com os tornozelos lilases parapeitos de varanda, imaginou o seu próprio anjo da guarda estendido aos pés como uma sombra, de braços abertos, um resto sangrento de Via Láctea a evaporar-se-lhe do canto dos beiços
”.
(1)

Imaginem 315 páginas nesse teor e é fácil imaginar que a lava vulcânica muitas vezes se deixa levar para o jorro fácil, para o informe e o meramente prolixo. Trata-se, com uma respiração narrativa de maior fôlego, de um caso parecido aos textos em prosa da nossa Hilda Hilst (Fluxofloema; Qadós; Tu não te moves de ti).


CASA PORTUGUESA HORROR SHOW

Lobo Antunes, em Auto dos Danados (1985), lançamento da editora Best Seller (salvo engano, é o segundo publicado no Brasil; o primeiro foi Os cus de Judas pela Marco Zero), demonstra maior habilidade técnica, esmerando-se na construção do romance, apesar de manter o mesmo lirismo (no sentido lukásiano). E assim como Hilda Hilst esse autor de 50 anos tem certa afinidade com outro ótimo escritor lusitano, Vergílio Ferreira, que conseguiu ser um grande alegorizador da opressão salazarista e um autor verticalmente existencialista e fenomenológico em romances raros, como Alegria breve, Nítido Nulo e Rápida, a sombra.

Em Auto dos Danados, cujos acontecimentos principais transcorrem por volta da Revolução dos Cravos, as baterias do realismo grotesco de Lobo Antunes se voltam contra a alta burguesia que se beneficiou do regime de Salazar. E ela nunca entrou em decadência; ela é a própria decadência, pela sua ganância, pela sua falta de interesse público, pela sua depravação, equivalendo a uma casa apodrecendo ao som meloso de Roberto Leal tirolando “é uma casa portuguesa, com certeza”…

Realismo grotesco, sim. Porque o instrumento utilizado para mostrar tal podridão moral e ética é o exagero. Enquanto o patriarca agoniza, somos informados de que o seu genro fornicou com todas as mulheres do clã: as duas cunhadas, sendo uma delas mongolóide, a qual inclusive dá à luz uma filha dele, com quem ele também transa (e tem outra filha), além de faturar de quebra a sobrinha, Ana, que muitos anos depois retorna a Portugal para ajustar contas com o tio-amante.

Exagero eficaz, sim. Porque confronta o leitor com coisas “que não são possíveis”. E no entanto são possíveis e acontecem (ao contrário da necessidade e da possibilidade da ação heróica). Não se pense com isso que o romance é facilmente escandaloso ao mostrar os escombros da respeitabilidade portuguesa, ou então uma leitura fácil. É um livro pesado, como se um crítico da burguesia implacável como o italiano Alberto Moravia desse as mãos a um visionário compilador da realidade bruta dos objetos e das coisas diante do sem sentido do homem e da sociedade, como o francês Claude Simon, Nobel de 85. É o inferno, com certeza.


(1) a citação de CONHECIMENTO DO INFERNO foi extraída da 6ª. edição portuguesa, pelas Publicações Dom Quixote, 1983

 

por Alfredo Monte

01.11.1994

citado de Blog do Alfredo Monte

07.07.2009

 

 

 

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Maria Lúcia Wiltshire de Oliveira

 

Auto dos Danados: cenas de uma família condenada

 

 

Resumo. Em Auto dos danados (1985), Antônio Lobo Antunes encena a fragmentação de uma família tradicional ao mesmo tempo em que rompe a tradição da escrita romanesca, praticando uma tendência dupla da prosa portuguesa pós-75. Ao conceder a narração diretamente às personagens, o autor procede como um psicanalista a seus pacientes, fazendo do romance a sucessão progressiva e aleatória das falas dos membros de uma família patriarcal, retratados como criaturas humanas, demasiado humanas, que nos causam horror mas também compaixão, numa clave polifônica à Dostoievski. Tema, tons e tintas conferem à obra um lugar especial na literatura portuguesa contemporânea.

 

Este artigo está disponível em formato pdf. Clique aqui para continuar a ler.

 

 

 

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Nuno Barbosa

 

Comentário a Auto dos Danados

 

 

Pano de fundo: pós 25 de Abril, Alentejo, o "avanço comunista".

Situação: uma família em queda livre, a morte do "patriarca", a demanda por uma herança ilusória:

"(...) uma família nojenta de cabras e bois mansos a devorarem-se mutuamente no casarão do Guadiana, a sonegarem-se as heranças, a odiarem-se, a roubarem-se a esmagarem-se, a destruírem-se, e tudo isto debaixo da boquilha e da pálpebra cáustica do avô, derramado na cadeira de baloiço da sala, a assistir, numa alegria formidável à agonia da sua matriz, como se não suportasse que nada de seu sobrevivesse ao seu fim, que nada de seu continuasse insolentemente vivo após a sua morte, como se quisesse arrastar consigo as terras e as pessoas para os desconhecidos pântanos subterrâneos aonde ia, como se quisesse matá-los com ele a gozar a sua lenta dissolução nas desmemoriadas névoas do passado, o velho estendido agora na cama, a observar-nos, com o único olho válido, sem lograr falar, sem lograr mover-se, e no entanto de lábios desconjuntados na risonha crueldade do costume."

Sucedendo-se as personagens encarregues da narração, o leitor é confrontado com uma família que através das sucessivas gerações vem a perder toda a pujança financeira que a caracterizara outrora e chega a um ponto em que vários dos seus membros se encontram totalmente dependentes da presumível herança do "avô" e por ela se degladiam, esperando-os a recompensa de múltiplas dívidas acumuladas.

A decadência económica é no entanto o ponto de partida para se penetrar numa teia de relações em que a infidelidade, a desconfiança, a carência, a violência e o ódio são tónicas constantes.

Assemelhando-se, inevitavelmente, a uma película de Woody Allen, o livro é um desfile de personagens insatisfeitas e frustradas que se voltam para todo o lado em busca de um eco reconfortante, de alguém diferente daquele com quem vivem ("a tua mãe que dorme com o marido da irmã do teu pai, o qual marido, por seu turno, dorme com as mulheres todas da família, mesmo a anormal, mesmo a doente a quem fez uma filha de quem há cinco ou seis anos teve um filho"), sentindo, no entanto, ainda assim, o logro das relações humanas, condenadas ao fracasso, e mesmo o desprezo pelos "parceiros de outrora" ("Como é que eu pude e como é que a minha mãe pôde, mesmo sem falar, mesmo mongolóide, como é que podemos ambas parir dele, como é que a mulher do meu tio pôde, como é que a minha tia pode ainda?").

Cada vez mais amargos e secos, são indivíduos para quem a sobrevivência é a palavra-chave, capazes das maiores mentiras, sacanices e crueldades para com os outros, na busca da sua satisfação egocentrista e em que os outros só parecem contar em função da sua utilidade - "O ferroviário disse Deita, de uma forma tão neutra que principiei a chorar e os sobreiros e a paisagem e o seu rosto se desfocaram pela lente das lágrimas, exactamente assim, Deita, após tantos anos de dormir ao meu lado sem me tocar sequer, nem num desses casuais e inexplicáveis movimentos do sono, arregaçou-me a roupa, Deita, quebrou-me o elástico das cuecas, Deita, acabou por crucificar-me os ombros contra os limos, Deita, à medida que remexia na braguilha das próprias calças, à procura, e três meses depois abortei, no hospital, um ano antes do Francisco nascer, uma dolorosa pasta escura num balde, e acho que o meu marido nem sonhou, ocupado como andava com carruagens e furgões, a soprar a corneta a meio do almoço ou a saudar com a bandeira vermelha nos ofertórios das missas, uma pasta num balde (...)"

De resto, a capacidade de amar parece evaporar-se, volatilizar-se na repetição incessante de gestos e palavras desapaixonadas, a-significantes e até agressivas, verificando-se um círculo vicioso (cfr. Capítulo transcrito e a educação à chibata), de geração para geração, já que os pais, vendo-os com desconfiança como acidentes e estranhos, não são capazes de amar os filhos - "(...) e a barriga cresceu-me misteriosamente a seguir a uma noite de sangue e comboios e dores, a ouvir grasnidos de corneta na estação dos lençóis, e meses depois os meus ossos quebraram-se no Hospital de Reguengos e trouxeram-me a Ana, vermelhíssima e eu a olhá-la sem forças e a pensar Quem é, quem será, porque me trazem ao quarto esta larva horrorosa. Uma enfermeira de óculos disse Vamos experimentar o leite, desabotoou-me a camisa, girou o mecanismo aos pés da cama, colocou contra mim a repugnante criatura enrugada e empurrou-lhe cabeça contra o bico do meu peito, e senti que me mordiam a carne com um par de ferozes pinças cartilagíneas de lagosta."

Para mais à raiva destes seres danados devemos somar o terror que o espectro do comunismo lhes desperta:

- "preferes os comunistas, minha santa, queres que nos fuzilem amanhã contra a parede da igreja?";

- "não percebeste que nos dividem às rodelas se não passarmos a fronteira depressa?, e eu imaginei um cortejo de bandeiras vermelhas a correr para nós";

- "Não vês que querem matar as pessoas como nós (...) não se te mete nessa cabeça dura que quero salvar a tua mãe de ser violada dias a fio por uma bicha de ganhões?";

- "Todos defuntos, num banho de sangue, com forquilhas espetadas na barriga, com os braços decepados, com as partes cortadas";

- "os comunistas estão aí, não lhes sentes o cheiro?".

E assim chegamos à compreensão de que acabam por assassinar o velho, que se matam uns ao outros, que se matam a si próprios, sendo os seus instrumentos os mais cruéis - a indiferença, a ausência de afecto, o desprezo no tratamento - e as suas técnicas as mais perversas - a corrosão gradativa, o desgaste continuado, a rotina do ódio.

 

 

Nuno Barbosa

citado daqui

[não datado]

 

 

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José Alexandre Ramos

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