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Alfredo Monte
Lirismo e realismo ao modo Lobo Antunes

edição brasileira da Best Seller, anos
noventa
MOTE
Para o grande pensador Georg Lukács, o ponto fundamental da épica
narrativa era a questão da possibilidade e da necessidade da ação do
herói: para que ela fosse possível e necessária o mundo deveria fazer
sentido.
Na época burguesa, dificilmente há a sensação de que o mundo faça
sentido. Ou o seu sentido é acumular capital? O herói do romance, a
grande arte burguesa, procura, então, o sentido dentro de si, e o gênero
narrativo descamba para o lirismo (descrição de estados de alma), uma
vez que a realidade íntima do herói entra em confronto com a realidade
exterior. Ou seja, a gente se acha demais, e o mundo de menos, árido e
pobre.
Observando a trajetória da ficção contemporânea, vemos como diversos
narradores, esmagado pelo peso sem sentido do mundo burguês, deixaram-se
levar (via experimentação linguística ou via introspecção extrema) para
um lirismo radical, deformando o imperativo épico de “representar a
realidade”.
O CASO LOBO ANTUNES
O português António Lobo Antunes, em
Conhecimento do Inferno (1980),
fornece um belo exemplo do dito acima. Seu texto é um magma de
lembranças, cenas e imagens incríveis que fragmentam a narrativa e
deixam no leitor a sensação de estar acompanhando um vulcão em erupção,
um grande talento sem dúvida:
“A rapariga, imóvel, muito direita, a apertar contra o peito o seu
saco de plástico, consentia que os anjos lhe pousassem nos ombros, nos
cabelos, nos braços, tal os pássaros nas estátuas dos parques,
empoleirados em heróis de bronze como a roupa nos cabides. Se não agisse
depressa o asilo transformar-se-ia num aviário celeste, repleto de roçar
de túnicas e de zumbidos siderais, e dezenas de homens alados invadiriam
a Urgência, soprando-nos na nuca leves risos idênticos às borbulhas das
guelras, que se dissolvem em estalos verdes de musgo.
–Porque não lhe dá uma injecção contra os anjos? –insistia a enfermeira.
-Tem de haver uma injecção contra os anjos como há raticida, pó das
baratas, remédio para o bicho das vinhas. Os anjos são mais fáceis de
matar do que o bicho das vinhas.
E ele imaginou por um instante, enquanto escrevia na ficha uma receita
qualquer, anjos a agonizarem no soalho, suados e pálidos, chamando-o com
as pupilas de vidro baço dos moribundos, que se despem a pouco e pouco
de expressão e de cor até se assemelharem a cristais ocos, sem reflexos,
idênticos aos duros olhos de plástico dos bichos empalhados. Imaginou as
camionetas de lixo da cidade carregadas, ao fim da noite, de astronautas
bíblicos, de ossos porosos de água e barbatanas de mergulhador,
acumulados uns sobre os outros em atitudes de náufrago, imaginou um
jovem querubim enforcado num algeroz, raspando com os tornozelos lilases
parapeitos de varanda, imaginou o seu próprio anjo da guarda estendido
aos pés como uma sombra, de braços abertos, um resto sangrento de Via
Láctea a evaporar-se-lhe do canto dos beiços”.
(1)
Imaginem 315 páginas nesse teor e é fácil imaginar que a lava vulcânica
muitas vezes se deixa levar para o jorro fácil, para o informe e o
meramente prolixo. Trata-se, com uma respiração narrativa de maior
fôlego, de um caso parecido aos textos em prosa da nossa Hilda Hilst (Fluxofloema;
Qadós; Tu não te moves de ti).
CASA PORTUGUESA HORROR SHOW
Lobo Antunes, em Auto dos Danados (1985), lançamento da editora Best
Seller (salvo engano, é o segundo publicado no Brasil; o primeiro foi Os
cus de Judas pela Marco Zero), demonstra maior habilidade técnica,
esmerando-se na construção do romance, apesar de manter o mesmo lirismo
(no sentido lukásiano). E assim como Hilda Hilst esse autor de 50 anos
tem certa afinidade com outro ótimo escritor lusitano, Vergílio
Ferreira, que conseguiu ser um grande alegorizador da opressão
salazarista e um autor verticalmente existencialista e fenomenológico em
romances raros, como Alegria breve, Nítido Nulo e Rápida, a sombra.
Em Auto dos Danados, cujos acontecimentos principais transcorrem por
volta da Revolução dos Cravos, as baterias do realismo grotesco de Lobo
Antunes se voltam contra a alta burguesia que se beneficiou do regime de
Salazar. E ela nunca entrou em decadência; ela é a própria decadência,
pela sua ganância, pela sua falta de interesse público, pela sua
depravação, equivalendo a uma casa apodrecendo ao som meloso de Roberto
Leal tirolando “é uma casa portuguesa, com certeza”…
Realismo grotesco, sim. Porque o instrumento utilizado para mostrar tal
podridão moral e ética é o exagero. Enquanto o patriarca agoniza, somos
informados de que o seu genro fornicou com todas as mulheres do clã: as
duas cunhadas, sendo uma delas mongolóide, a qual inclusive dá à luz uma
filha dele, com quem ele também transa (e tem outra filha), além de
faturar de quebra a sobrinha, Ana, que muitos anos depois retorna a
Portugal para ajustar contas com o tio-amante.
Exagero eficaz, sim. Porque confronta o leitor com coisas “que não são
possíveis”. E no entanto são possíveis e acontecem (ao contrário da
necessidade e da possibilidade da ação heróica). Não se pense com isso
que o romance é facilmente escandaloso ao mostrar os escombros da
respeitabilidade portuguesa, ou então uma leitura fácil. É um livro
pesado, como se um crítico da burguesia implacável como o italiano
Alberto Moravia desse as mãos a um visionário compilador da realidade
bruta dos objetos e das coisas diante do sem sentido do homem e da
sociedade, como o francês Claude Simon, Nobel de 85. É o inferno, com
certeza.
(1)
a citação de
CONHECIMENTO DO INFERNO foi extraída da 6ª. edição portuguesa, pelas
Publicações Dom Quixote, 1983
por Alfredo Monte
01.11.1994
citado de
Blog do Alfredo Monte
07.07.2009
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Maria Lúcia Wiltshire
de Oliveira
Auto dos
Danados: cenas de uma família condenada
Resumo. Em Auto dos danados (1985),
Antônio Lobo Antunes encena a fragmentação de uma família tradicional ao mesmo
tempo em que rompe a tradição da escrita romanesca, praticando uma tendência
dupla da prosa portuguesa pós-75. Ao conceder a narração diretamente às
personagens, o autor procede como um psicanalista a seus pacientes, fazendo do
romance a sucessão progressiva e aleatória das falas dos membros de uma família
patriarcal, retratados como criaturas humanas, demasiado humanas, que nos causam
horror mas também compaixão, numa clave polifônica à Dostoievski. Tema, tons e
tintas conferem à obra um lugar especial na literatura portuguesa contemporânea.
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Nuno Barbosa
Comentário a Auto dos Danados
Pano de fundo: pós 25 de Abril, Alentejo,
o "avanço comunista".
Situação: uma família em queda livre, a morte do "patriarca", a demanda
por uma herança ilusória:
"(...) uma família nojenta de cabras e bois mansos a devorarem-se
mutuamente no casarão do Guadiana, a sonegarem-se as heranças, a
odiarem-se, a roubarem-se a esmagarem-se, a destruírem-se, e tudo isto
debaixo da boquilha e da pálpebra cáustica do avô, derramado na cadeira
de baloiço da sala, a assistir, numa alegria formidável à agonia da sua
matriz, como se não suportasse que nada de seu sobrevivesse ao seu fim,
que nada de seu continuasse insolentemente vivo após a sua morte, como
se quisesse arrastar consigo as terras e as pessoas para os
desconhecidos pântanos subterrâneos aonde ia, como se quisesse matá-los
com ele a gozar a sua lenta dissolução nas desmemoriadas névoas do
passado, o velho estendido agora na cama, a observar-nos, com o único
olho válido, sem lograr falar, sem lograr mover-se, e no entanto de
lábios desconjuntados na risonha crueldade do costume."
Sucedendo-se as personagens encarregues da narração, o leitor é
confrontado com uma família que através das sucessivas gerações vem a
perder toda a pujança financeira que a caracterizara outrora e chega a
um ponto em que vários dos seus membros se encontram totalmente
dependentes da presumível herança do "avô" e por ela se degladiam,
esperando-os a recompensa de múltiplas dívidas acumuladas.
A decadência económica é no entanto o ponto de partida para se penetrar
numa teia de relações em que a infidelidade, a desconfiança, a carência,
a violência e o ódio são tónicas constantes.
Assemelhando-se, inevitavelmente, a uma película de Woody Allen, o livro
é um desfile de personagens insatisfeitas e frustradas que se voltam
para todo o lado em busca de um eco reconfortante, de alguém diferente
daquele com quem vivem ("a tua mãe que dorme com o marido da irmã do teu
pai, o qual marido, por seu turno, dorme com as mulheres todas da
família, mesmo a anormal, mesmo a doente a quem fez uma filha de quem há
cinco ou seis anos teve um filho"), sentindo, no entanto, ainda assim, o
logro das relações humanas, condenadas ao fracasso, e mesmo o desprezo
pelos "parceiros de outrora" ("Como é que eu pude e como é que a minha
mãe pôde, mesmo sem falar, mesmo mongolóide, como é que podemos ambas
parir dele, como é que a mulher do meu tio pôde, como é que a minha tia
pode ainda?").
Cada vez mais amargos e secos, são indivíduos para quem a sobrevivência
é a palavra-chave, capazes das maiores mentiras, sacanices e crueldades
para com os outros, na busca da sua satisfação egocentrista e em que os
outros só parecem contar em função da sua utilidade - "O ferroviário
disse Deita, de uma forma tão neutra que principiei a chorar e os
sobreiros e a paisagem e o seu rosto se desfocaram pela lente das
lágrimas, exactamente assim, Deita, após tantos anos de dormir ao meu
lado sem me tocar sequer, nem num desses casuais e inexplicáveis
movimentos do sono, arregaçou-me a roupa, Deita, quebrou-me o elástico
das cuecas, Deita, acabou por crucificar-me os ombros contra os limos,
Deita, à medida que remexia na braguilha das próprias calças, à procura,
e três meses depois abortei, no hospital, um ano antes do Francisco
nascer, uma dolorosa pasta escura num balde, e acho que o meu marido nem
sonhou, ocupado como andava com carruagens e furgões, a soprar a corneta
a meio do almoço ou a saudar com a bandeira vermelha nos ofertórios das
missas, uma pasta num balde (...)"
De resto, a capacidade de amar parece evaporar-se, volatilizar-se na
repetição incessante de gestos e palavras desapaixonadas,
a-significantes e até agressivas, verificando-se um círculo vicioso (cfr.
Capítulo transcrito e a educação à chibata), de geração para geração, já
que os pais, vendo-os com desconfiança como acidentes e estranhos, não
são capazes de amar os filhos - "(...) e a barriga cresceu-me
misteriosamente a seguir a uma noite de sangue e comboios e dores, a
ouvir grasnidos de corneta na estação dos lençóis, e meses depois os
meus ossos quebraram-se no Hospital de Reguengos e trouxeram-me a Ana,
vermelhíssima e eu a olhá-la sem forças e a pensar Quem é, quem será,
porque me trazem ao quarto esta larva horrorosa. Uma enfermeira de
óculos disse Vamos experimentar o leite, desabotoou-me a camisa, girou o
mecanismo aos pés da cama, colocou contra mim a repugnante criatura
enrugada e empurrou-lhe cabeça contra o bico do meu peito, e senti que
me mordiam a carne com um par de ferozes pinças cartilagíneas de
lagosta."
Para mais à raiva destes seres danados devemos somar o terror que o
espectro do comunismo lhes desperta:
- "preferes os comunistas, minha santa, queres que nos fuzilem amanhã
contra a parede da igreja?";
- "não percebeste que nos dividem às rodelas se não passarmos a
fronteira depressa?, e eu imaginei um cortejo de bandeiras vermelhas a
correr para nós";
- "Não vês que querem matar as pessoas como nós (...) não se te mete nessa
cabeça dura que quero salvar a tua mãe de ser violada dias a fio por uma
bicha de ganhões?";
- "Todos defuntos, num banho de sangue, com forquilhas espetadas na
barriga, com os braços decepados, com as partes cortadas";
- "os comunistas estão aí, não lhes sentes o cheiro?".
E assim chegamos à compreensão de que acabam por assassinar o velho, que
se matam uns ao outros, que se matam a si próprios, sendo os seus
instrumentos os mais cruéis - a indiferença, a ausência de afecto, o
desprezo no tratamento - e as suas técnicas as mais perversas - a
corrosão gradativa, o desgaste continuado, a rotina do ódio.
Nuno Barbosa
citado daqui
[não datado]
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