Arancha Oña Santiago
Heróico anti-herói
Memória de Elefante é a primeira obra da
galardoada carreira literária de António Lobo Antunes; entre os múltiplos
prémios recebidos destacam-se: o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação
Portuguesa de Escritores, o Prémio Rosalía del Castro do PEN Club Galego, o
Prémio de Literatura Europeia do Estado Austríaco, o Prémio União Latina de
Escritores e o Prémio Jerusalém.

capa da edição Mondadori, 2005
No presente romance, a personagem principal comunica
com a voz grave de débeis ressonâncias a partir da subjectividade mais profunda
do seu ser, através de uma prosa poética plena de analogias artísticas
insuspeitas e surpreendentes, angustiadas metáforas, alegorias, paradoxos,
diálogos opacos e fustigantes monólogos existencialistas, numa ambiguidade
dualista plena de incerteza, dirimindo entre a banalidade e o transcendental.
Fugindo do excessivo e exuberante racionalismo
matemático, do pragmatismo, da autoridade idealista e positivista, do por vezes
presunçoso espiritualismo e do avassalador materialismo, em suma, contra
qualquer autoridade, o protagonista apresenta-se num mundo de desorientação, de
confusão e de uma crise fertilíssima.
Como processo iniciático e por trás da claridade
ofuscante do excessivo racionalismo tradicional, o protagonista lança um grito
desesperado de sinceridade no concavo espaço do silêncio, sem arrogância,
questionando a realidade sem receber uma resposta convincente, pendendo sem
equilíbrio algum e contorcendo-se sobre si mesmo numa corda entre o determinismo
e a liberdade, entre a fé e o agnosticismo, entre o absoluto e o relativismo
moral.
Exorta o inanimado e o animado, metamorfoseando a
existência para a compreender, jogando com a fantasia e a realidade da
percepção, formando um puzzle de elementos congruentes e incongruentes. Evoca
o caos dentro de uma ordem aparente e uma ordem dentro do caos, expulsando tudo
isso através desenlaçado novelo da liberdade.
Psiquiatra de profissão, sendo um fardo por vezes
difícil de carregar, a personagem principal apresenta-se como um indivíduo
frágil por condição mas duro por necessidade, desterrado à vida de cabeça
ajudado por fórceps, exaltado na análise do seu instável projecto de existência
face à aparentemente titânica essência do passado. Projecto de existência
individual que só encontrou estabilidade no útero materno e que existe no ermo
de um mundo em que não entende as leis da sua harmonia e para o qual são inúteis
os ecos harmónicos da tradição.
Na sua subsistência, desliga-se melancolicamente de
qualquer memória de autoridades geométricas e ressonâncias de leis universais,
sendo incapaz de erguer com suas intenções outra jurisdição que o guie em sua
dispersão, aceitando uma desordem que o leva à quase perversa aniquilação do seu
próprio ser. Desesperançado perante o rosto de uma realidade a que é incapaz de
fazer um diagnóstico definitivo, conforma-se com meros e aproximativos
juízos, acalmando a dor com leves analgésicos cujo excesso o leva ao
atordoamento, sem encontrar um medicamento contundente que a elimine de raiz.
Enfrentando a realidade com uma vontade
dilacerantemente individual agredida por um trágico pessimismo, defende sem
muita contundência e com eterna e angustiada dúvida o seu fado de sinuosos
acontecimentos, entre os quais a sua participação numa guerra; incorporado de
uma solidão dissonante, desmoronada como uma estátua da antiguidade e
dissimulada dos fedores do passado.
A nossa personagem enfatiza de forma literária a
unicidade da sua pessoa e a sua luta pelo significado da lua liberdade, uma
liberdade sem bússola, que ao mesmo tempo que o oprime, o converte num ser
singular e individual, separado da ordem cósmica, permitindo-lhe ajustar a sua
identidade sobre a base do sofrimento e do tormento, comunicando
existencialmente com a alteridade.
Liberdade cuja cruz é a responsabilidade pela qual
sofre uma angústia e uma ansiedade existencial gerada como mecanismo de defesa
perante a construção da sua identidade e do seu destino em harmonia ou
dissonância com a liberdade dos demais, e como resposta às ameaças e tensões que
sofre no seu sistema de valores.
O nosso protagonista é singular na medida em que
actua e se realiza com algum pessimismo na conquista e na imputação dos seus
próprios actos. Escolhe o seu caminho sem se deixar levar por modelos universais
e objectivos, escolha livre unicamente limitada pelas circunstâncias que o
rodeiam, pela implicação com compromissos e responsabilidades sem garantias.
Sem uma predisposição ou predestinação prévia, o
protagonista experimenta a responsabilidade das suas acções e a subjectividade
da sua existência se reconstrói e configura em si mesmo, sobre a base do
tormento, reconhecendo tenuemente a alteridade, e na busca da aparentemente
prismática verdade. Alteridade na qual de sujeito se converte em objecto, de
onde se reflecte um mundo de incompreensíveis estereótipos humanos, alguns
confinados ao psiquiátrico, outros na liberdade de movimentos pela vida, mas
todos sem manual de instruções.
O nosso psiquiatra luta pela procura de uma
linguagem universal que o faça comunicar com a realidade e com os outros, pela
saída do labirinto da sua existência. Sensação e experiência linguística mantida
única e exclusivamente com a sua saudosa ex-mulher a quem continua amando e não
consegue esquecer, mas paradoxalmente não consegue dizê-lo. Experiência que nem
sequer teve com sua mãe, que quase morria depois do seu parto, além de sofrer de
uma surdez metafórica ou real que o levou à sua incompreensão.
Como os castigos míticos da condenação a uma
eternidade infernal, o nosso protagonista sente-se condenado a uma existência
angustiosa e incompreensível, através dos rígidos parâmetros da razão herdada.
Submerso nas águas do dualismo, entre a existência e
a essência, entre a racionalidade e suas consequências, entre a credulidade e
incredulidade, o nosso protagonista vai vogando sobre a decadência da razão, sem
forjar ilusões e tocando o fundo do desencanto da existência, encalhando na dor
e na crueldade da realidade sincera que marca o seu destino até... ao nada?
por Arancha Oña Santiago
em
Artes Hoy
Novembro 2005
(traduzido do espanhol por José Alexandre Ramos)
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Ente Lectual
Memória de
Elefante - as personagens e a pessoa
Mais do que a persistência tenaz e manietante das
imagens (o miúdo do circo que rasga listas telefónicas, os pianos que alguém
carrega), muito mais do que isso, uma galeria sem fim de personagens reais,
positivamente reais, em último recurso porque as ponho em letras.
Uma funcionária a quem, para os devidos efeitos, trataremos por Emily Brontë; o
amigo que - tal como eu, médico, meia-idade, recém divorciado, eterno retornado
da África onde deixámos os dentes e os tomates a troco de pensões risíveis ou
invisíveis - um Sandokan, um verdadeiro Sandokan, mas sem sabre ou tigrezinhos
ou Mompracem, nos quais um refúgio, uma garantia que seja; a espera por ti,
como um cego espera que lhe enviem olhos pelo correio, escreve Molero; a
divisão do sexo frágil em 5 categorias, 5 marcas de cigarros.
Uma mãe que garante, peremptória, a gente não damos conta do recado, sôtor;
os agentes de propaganda médica, como cães, ou antes primos afastados dos
vendedores de automóveis, de comum verborreia e indumentária; o velho treinador
de hóquei que, enternecido, recorda as diatribes do velho pai do velho
protagonista, 'fractura craniana', relembra em saudosismo e comoção
indiscutíveis; o médico empenhado em investigar meticulosa e responsavelmente os
tampos inferiores das secretárias do serviço, onde, dizem-lhe fontes seguras, o
KGB por negras e desconhecidas artes conseguiu colocar microfones; Sr. Joaquim,
prestimoso e fiel servidor do tiranete que carrega já com dez anos de pó e
esquecimento, que jura a mãos juntas, que o sô professor ainda vive, que tudo
um isco para a oposição, o nosso professor Oliveira ainda vive, fez-me seu
ministro das finanças ontem, bem vê, aqui que ninguém nos ouve, ele come-lhes as
papas na cabeça.
Dóri, a adiposa e necessitada sexagenária que fala nas 36 primaveras de cada
membro, enquanto afasta os problemas existenciais em casinos, álcool e
voluntariosos indivíduos do sexo oposto, qual gesto de mão que empurra
debilmente o fumo não desejado de um cigarro próximo e apenas o impele num novo
jogo de carambolas e movimentos insinuantes que não findam nunca. Não finda
nunca o movimento (perpétuo?) do torvelinho de ressaca, escrevia Brandão, este
ponto e esse contraponto dado por um protagonista a que poderemos, sem erro, dar
o nome do autor, na senda de um equilíbrio tão desejado como falhado, na fuga
precipitada e sem sistema da racionalidade convencional, em paralelo (em
coincidência?) com um jogo pessoano entre os binómios sentir/pensar e,
sobremaneira, a sinceridade e o fingimento.
Esta personagem, este autor, meia idade, a entrar na curva descendente da vida
que, até então, lhe levara uma educação aburguesada no centro da capital, por
entre salas de estar de tias e fotografias de coronéis de bigode e porte
esbatido e amarelecido, ou a inconstância das relações familiares, nas quais
convergem vontades e sentidos extremados que não levam vazão, e que perduram
para lá da idade adulta; uma vida que lhe trouxe também, eficiente e amável, o
sabor acre de uma guerra que nunca entendeu, de um divórcio com a mulher que
ainda ama, seguida da separação das filhas. Uma continuidade angustiante de dias
que se somam, firmada em hábitos questionáveis, apoiada na derisão e na ironia
em que se afunda, pelo terror compreensível de se confessar frágil, e relançada
indefinidamente pela perseguição em ponto morto do desejo antigo de escrever,
acompanhado pelo também ele antigo medo (‘Mas se começar a escrever de facto
e parir merda que me resta?’). Em suma, um homem numa crise existencial – se
bem que recuse, sem dúvida, a designação – movida contra tudo aquilo que de
firme, material, positivo, exista.
E, no início e no fim de tudo isto, a presença da memória como escape, como
lenitivo, ao contrário de Pessoa que se refugia num passado ficcionado, o
protagonista refugia-se na certeza tranquilizante de que, qualquer passado é, em
si próprio, uma ficção: uma verdade erguida acima das demais, sem que precise
(por isso mesmo?) de sistemas e prateleiras a sustentá-la e onde toda a
parafernália de truques, de mecanismos de que se muniu o organismo para
sobreviver são destituídos de funcionalidade – onde a própria fingida ferocidade
da ironia ou do sarcasmo cedem lugar ao sentimento simples que lhes dá origem.
No início e no fim de tudo isto: a memória que terminava em garantir-lhe,
contrariando o peso oficial da tabuada, quem sabe se no sótão do sótão, ou na
cave da cave, a afirmar que 2 e 2 não são 4.
por Ente Lectual
em
Orgia Literária
26.02.2008
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Francisco Solano
Primeiros abalos
Aos 37 anos, António Lobo Antunes publicou o seu primeiro romance e deixou
clara a sua intenção de renovar a maneira de contar. Memória de Elefante
é uma indagação à alma humana.
O estilo não é um dom, mas sim fruto de muitíssimas
horas de trabalho, de escrever constantemente, de emendar e cortar páginas, de
não encontrar nunca satisfação. E, não obstante, há que chegar à máxima
exigência e precisão, até que seja a mão quem escreva - a mão -, não a vontade.
Lobo Antunes tem insistido, mais que uma vez, em que escrever é deixar que a mão
busque as palavras: "Os livros já estão escritos, e tu apenas os descobres
porque estendes a mão". Surpreende tanta humildade, tanta cuidadosa paciência.
Não há nesta opinião qualquer vaidade sobre a qualidade do escritor, nem auréola
de distinção de uma tarefa que se reduz a imenso trabalho. E isto disse um
escritor que, na última década, tem vindo a publicar romances perturbadores, no
limite do prodígio verbal, carregados de emoção e calamidade, que imprimem o
processo de desconstrução da memória, revelam as maranhas dos sentimentos e nos
hipnotizam com a expressão do indizível. Porém se os últimos livros do escritor
português, empenhado em alargar ao limite o território do romance, subvertem o
rito conciliador da leitura, na sua primeira obra já se aprecia o embrião do que
viria a ser o seu estilo, a forma rebelde do seu talento, o seu fastio perante a
convenção narrativa e, pode dizer-se, o pesar de ter que se dobrar numa
composição de índole autobiográfica. Publicado em 1979, quando contava com 37
anos - Lobo Antunes poupou-se antes de aparecer em público -, Memória de
Elefante anuncia um escritor perplexo, cuja introspecção da sua própria
crise matrimonial se transforma na matéria efervescente e delirante de um homem
cuja única garantia de estar vivo é a omissão do seu nome na página de
necrologia dos jornais e que deve sobrepor-se, contra todos os prognósticos, à
"vontade de se vomitar a si mesmo".
O protagonista é um psiquiatra na agonia da mudança,
que não sabe que vai ser de si, em que se vai converter, depois de ter decidido
separar-se da mulher que ama. Perdido em Lisboa, que se configura como uma
cidade de estímulos tão mórbidos como inúteis, rival de si mesmo ("detestava
cada vez mais emocionar-se"), ressentido contra a sua profissão ("o psiquiatra
assemelha-se aos vendedores de automóveis na sua loquacidade demasiado delicada
e bem vestida") e raivoso contra todos ("que se defendiam melhor do polvo
gelatinoso da depressão"), assistimos à emergência dos atributos mais
inextrincáveis do ser humano, aos impulsos mais desesperados e à suspicácia
existencial de que não há saída, de que "é realmente muito fodido ser homem, não
é?". Contada por uma voz só aparentemente externa, já que surge das entranhas da
personagem, a narrativa desenvolve-se à maneira de uma confissão mortificante
que, ao pôr-se por escrito, permite suportar a angústia de uma solidão
aborrecida e desejada, único lugar de onde se reconhece e mitiga,
paradoxalmente, a angústia da autodestruição.
Assim o tormento do psiquiatra, causa da sua
depressão, não radica na sua crise conjugal, nem na sua beligerância contra o
homem comum, mas tem origem na sua vocação radical pela escrita, uma paixão
que antecipa o fracasso ao comprovar que "os romances e poemas que perpetrava
sem escrever formavam como que uma prolongação narcisista sem conexão com a
vida, arquitectura oca de palavras, desenho de frases vazias de emoção". Contra
essa separação entre escrita e vida se estenderá depois toda a obra posterior de
Lobo Antunes. Mas em Memória de Elefante essa ruptura, como o divórcio
dolorosamente assumido do psiquiatra, está bem apetrechada de belas imagens,
metáforas engenhosas e piruetas verbais - tudo temperado, ainda, com
nutridas menções culturais - , que se acumulam para decorar o texto de "efeitos
literários" e povoar a narrativa com um barroquismo falseado. Não obstante,
incluindo esses mimetismos e excessos, o romance alcança um nível e intensidade
admiráveis, e se impõe com tal convicção na análise da alma humana que
invejariam Camus ou Dostoievsky. Primeiro abalo de uma novelística
excepcional, poder-se-ia dizer sem presunção que aqui está já Lobo Antunes por
inteiro.
por Francisco Solano
em
El Pais
01.10.2005
(traduzido do espanhol por José Alexandre Ramos)
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Gregório Dantas
Primeiro Pesadelo
Memória de elefante,
livro de estréia do consagrado Lobo Antunes, é marco do romance
português pós-Revolução dos Cravos.
António Lobo Antunes
é um escritor singular. Arredio a modismos, premiações e entrevistas, o
autor de
Esplendor de Portugal
já se mostrou um crítico mordaz não apenas de José Saramago, com quem é
constantemente comparado, mas de muitos autores de sua geração: Agustina
Bessa-Luís, Virgílio Ferreira e Lídia Jorge são alguns representantes do
que Lobo Antunes já chamou de uma literatura menor, chata, interessante
apenas à crítica universitária. Tais julgamentos (injustos, é preciso
que se diga), além de anedotas com sabor de fofoca, ajudam a compor uma
imagem bastante particular, de artista original e algo excêntrico, que
não faz concessões ao bom gosto e a literatices. Imagem confirmada por
sua literatura, que já foi chamada de anti-acadêmica e barroca, e escapa
aos padrões mais correntes de definição. Não à toa, seu
Não entres tão depressa nessa noite
escura (2000) recebeu, um pouco provocativamente, o
subtítulo de "poema".
Médico "por acaso"
(leia-se: conveniência familiar), Lobo Antunes pôde se dedicar
exclusivamente à literatura após o sucesso de seu primeiro livro,
Memória de elefante
(1979). Trata-se, de fato, de um marco no romance português
pós-Revolução dos Cravos. Após a revolução, em 1974, seguiram-se alguns
anos de silêncio criativo, e os esperados títulos que se julgava estarem
escondidos no fundo das gavetas, aguardado o fim da ditadura para se
revelarem, custaram um pouco a sair. Talvez de início favorecido por
certa avidez por novos títulos, o romance de Lobo Antunes foi um sucesso
de crítica e público, junto ao hoje pouco comentado
O que diz Molero
(1977), de Dinis Machado. A estes se seguiram os próprios livros de Lobo
Antunes Os cus de Judas
(1979) e Conhecimento do
inferno (1980), além de
Levantado do chão
(1980), de José Saramago,
O dia
dos prodígios (1980), de Lídia Jorge, e um sem-número de
títulos de qualidade, responsáveis por aquilo que muitos chamaram de
boom do romance português.
Além dos estreantes, mantinham uma produção intensa autores como José
Cardoso Pires, Fernando Namora, Maria Velho da Costa, Almeida Faria e
Augusto Abelaira. Tratava-se, convenhamos, de um time nada desprezível
de ficcionistas.
Hoje em dia,
Memória de elefante não
parece agradar ao seu autor. Lobo Antunes o julga um livro de
principiante, charmoso em seus defeitos, cujo mérito seria guardar
alguns dos procedimentos desenvolvidos em sua obra posterior. Falsa
modéstia ou não, é aparentemente comum entre os críticos de sua obra
considerar seus primeiros três romances (que, segundo o autor, comporiam
um grande romance em três partes, e não uma trilogia) como textos de
aprimoramento de sua obra posterior, mais madura. Mas apenas uma leitura
comparativa mais detalhada nos daria a real dimensão destas afirmações.
De qualquer forma, é preciso deixar bastante claro que romances como
Memória de elefante
e Os cus de Judas
são muito mais do que projetos literários incompletos: são obras de uma
força narrativa e uma originalidade de que poucas vezes se aproximou a
literatura contemporânea.
Lembranças de guerra
O enredo de
Memória de elefante,
com forte inspiração autobiográfica, é relativamente simples:
acompanhamos a vida de um médico psiquiatra durante 24 horas, no
hospital, na rua, em um bar. Após uma dolorosa experiência na guerra
colonial em Angola, seu casamento se desfaz e o psiquiatra se encontra
em um estado de depressão e autocomiseração que se alterna com ataques
irados contra a sociedade portuguesa e as instituições de que faz parte.
Logo nas primeiras
páginas delineia-se um personagem rancoroso, envolto numa "revolta que o
transcendia": revolta contra o porteiro do hospital, com seu gordo
sorriso "a arrebitar os beiços para cima como se fosse voar"; revolta
contra a classe dos psiquiatras, estes "etiquetadores pomposos do
sofrimento", cuja atividade consiste em recolher dinheiro e exercer a
"única forma de maluquice que consiste em vigiar e perseguir a liberdade
da loucura alheia"; e revolta contra si mesmo: "puta que pariu a mim",
pragueja, depois de maldizer todo o hospital.
A narrativa
inicia-se em terceira pessoa, mas é de tal modo contaminada pela voz do
protagonista que, por vezes, estabelece-se um único fluxo de pensamento,
que discorre sobre pequenas observações do espaço e das pessoas à sua
volta, ao mesmo tempo em que é assaltado por esta memória "de elefante",
que não pode simplesmente ignorar. Misturam-se lembranças da guerra, de
um núcleo familiar desfeito e de uma infância não idealizada: "Quando é
que eu me fodi?", pergunta a si mesmo, em busca de um "trauma"
primordial na infância que tivesse provocado seu atual estado.
O conflito básico
desta personalidade tumultuada está condensado no fragmento abaixo:
Entre a Angola que
perdera e a Lisboa que não reganhara o médico sentia-se duplamente
órfão, e esta condição de despaisado continuara dolorosamente a
prolongar-se porque muita coisa se alterara na sua ausência [...]: no
fundo era como se, através dele, se repetisse um Fr. Luís de Sousa de
blazer.
No drama de Almeida
Garrett, Frei Luís de Sousa, dado como morto na batalha de Alcácer
Quibir, retorna à sua casa e encontra sua esposa novamente casada. A
vida prosseguiu sem ele, que não se encaixa na nova ordem da família e
do país: daí ele se dizer "ninguém". Em sentido semelhante, psiquiatra
de Lobo Antunes é um estrangeiro, um estranho em sua própria cidade, em
seu trabalho, em sua família.
A comparação revela
também um dos procedimentos mais marcantes do romance, o da
intertextualidade. Sem forças para racionalizar a crise que enfrenta, o
psiquiatra só consegue dar forma a determinadas impressões e sentimentos
por meio das referências literárias: em um momento particularmente
curioso, ele se compara à gaivota de Anton Tchekhov, aproximando a
angústia da referida peça à escrita de F. Scott Fitzgerald. Estão
presentes ainda nomes considerados centrais na literatura de Lobo
Antunes, como Louis-Ferdinand Celine e Dylan Thomas, além de Cesário
Verde, Luís de Camões, e até Charlie Parker e Paul Simon.
E as referências à
música popular e a ícones da cultura pop, como John Wayne, não são
discriminadas da cultura mais letrada. Da mesma forma, o tom elevado e
solene de determinadas reflexões alterna-se com um rebaixamento de tom
que pode beirar o escatológico, e expressões de repertório poético
substituem palavras do mais baixo calão. Tais contradições compõem não
apenas um quadro de oscilações de temperamento, como também a
dificuldade em achar um registro que represente sua crise pessoal.
Resultam dessas contradições laivos de uma cínica ironia, passível até
mesmo de gerar humor, mesmo que amargo.
Mas a característica
formal mais marcante de
Memória
de elefante é o ostensivo uso da linguagem metafórica,
da prosopopéia, e da animalização de coisas e pessoas. A cidade é
transfigurada metaforicamente, em um procedimento que já foi apontado
(equivocadamente) como tributário do realismo mágico latino-americano.
Alternam-se muitas metáforas visuais, algo absurdas, fruto de um estado
de quase delírio. Assim, os óculos da arquivista do hospital "lhe
aumentavam os olhos até às proporções de hirsutos insectos gigantescos
cercados de enormes patas de pestanas"; os internos flutuam "na
claridade das janelas como viajantes submarinos entre duas águas"; uma
estante rotativa é um "pinheiro de metal adubado por um estrume de
jornais de direita empilhados no chão"; e, na rua, os carros se
movimentam lânguidos, "à maneira de grandes gatos ávidos, tripulados por
senhores que envelheciam como as violetas murcham, numa doçura magoada".
O resultado é de pesadelo.
O mundo do qual se
está alheio se transforma, monstruosamente. Encadeiam-se idéias,
imagens, em associações regidas pelo ritmo da memória, e que deixam
entrever a angústia de não conseguir se comunicar, a assumida
incapacidade em abandonar seu estado de isolamento interior, o adiamento
constante de um novo início (que ainda é possível):
O psiquiatra desejou
com desespero um esperanto que abolisse as distâncias exteriores e
interiores que separam as pessoas, aparelho verbal capaz de abrir
janelas de manhã nas fundas noites de cada criatura como certos poemas
de Ezra Pound nos mostram de súbito os sótãos de nós mesmos num
maravilhamento de revelação: a certeza de ter topado um companheiro de
viagem em banco à primeira vista vazio e a alegria da partilha
inesperada.
Talvez a saída seja
mesmo escrever, apesar de tudo: não por acaso, no romance seguinte,
Os cus de Judas,
o protagonista assume a narrativa, em primeira pessoa. E foi assim com o
próprio Lobo Antunes, que consolidou uma vasta produção literária, uma
das mais originais dos últimos 30 anos.
Sobre o autor
Antonio
Lobo Antunes nasceu em Lisboa, em 1942. É psiquiatra e escritor, autor
de cerca de 15 livros, entre eles
Os cus de Judas,
Boa tarde às coisas aqui de
baixo e
Esplendor de Portugal. Lutou em Angola, na Guerra
Colonial Portuguesa, entre os anos de 1970 e 1973, fato que marcou
profundamente a sua obra.
por Gregório Dantas
em
Rascunho, O jornal de literatura do Brasil
Junho de 2006
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José Alexandre Ramos
Memória de
Elefante: a primeira angústia

edição Dom Quixote 1987
A primeira vez que li Memória de Elefante,
ainda desconhecendo factos da vida do seu autor, estava longe de perceber que
este livro era uma biografia. Revisitado muitos anos depois, e com o que fui
aprendendo sobre António Lobo Antunes, sinto-me à vontade para apontar sem
qualquer sombra de dúvida este livro como um testemunho autobiográfico de um
autor que embora não se estreava na arte de escrever, era estreante entre os
autores portugueses publicados no final da década de 70. Os conhecedores da
história desta estreia já sabem que o autor foi de férias e quando regressou
ficou surpreso pois havia muita agitação à volta do livro, estava a ser um
sucesso de vendas.
Não é difícil entender esse sucesso se o enquadrarmos na época (1979). O livro
surgiu contra muitos cânones, empregando um discurso pouco usual para o
romance instituído, embora já tivessem havido excepções à regra uma década
antes com Nuno Bragança ou José Cardoso Pires. E como o próprio Lobo Antunes
já disse em entrevistas, todos esperavam as grandes obras literárias que antes
não se escreviam por causa da censura, e afinal nada de novo surgira após a
instauração da democracia. É natural que, numa época ainda muito confusa de um
país acabado de se livrar dos grilhões de uma ditadura de meio século, o
barroco metafórico de Memória de Elefante, com bastantes críticas
sociais feitas com ironia e caricatura, incluindo o uso de vocabulário tido
como obsceno, tivesse despertado a curiosidade de muitos leitores.
Como já referi, trata-se de um livro bastante biográfico - um facto por todos
reconhecido, incluindo o próprio autor - onde se torna difícil separar a
ficção do realmente vivido (ou confessado em entrevistas pelo escritor). Conta
um dia na vida de um psiquiatra desde que começa uma jornada de trabalho até à
alvorada do dia seguinte, um homem angustiado por uma variada ordem de
factores: a mal explicada separação da sua mulher e duas filhas, a frustração
profissional no exercício da psiquiatria no mesmo hospital onde trabalhara o
seu pai, a solidão e o desespero, o jogo como fuga à realidade, os fantasmas
do passado (guerra e infância), a procura de uma voz para a sua escrita. Ou,
em poucas palavras, a terrível procura de si mesmo. Nessa circunstância, o
livro vai criando uma tensão à volta das indagações interiores do psiquiatra
que se esgota nos dois capítulos finais.
Não é na história que conta que está o valor do livro (facto que só será mais
evidente uma década depois), apesar do notório interesse do escritor que era
então Lobo Antunes de retratar com uma história condensada em um só dia toda a
sua experiência. Está antes nas sementes do seu engenho que se tornará cada
vez mais claro depois da catarse feita com este livro e mais dois (Os Cus
de Judas e Conhecimento do Inferno): Memória de Elefante usa
o discurso na terceira pessoa, mas há fugas para o relato na primeira pessoa,
que será a marca do estilo do autor. São essas ainda tímidas fugas para o
discurso do eu que ajudam a criar a tensão no livro, em que sentimos que o
narrador se mistura com a personagem narrada, ocupando-lhe o lugar, para
compreendermos que afinal não é história de um dia da vida de um psiquiatra
que se pretende falar, mas o que o próprio tem a dizer de si mesmo, acentuando
a falta que lhe faz a presença da mulher de quem se separou, das filhas que só
vê aos fins-de-semana, a sua indiferença para com os valores padrão da
sociedade e dos colegas do hospital, a sua indisponibilidade psicológica para
atender os doentes, a ironia com que observa o comportamento dos outros, e a
busca dos afectos ainda que termine o dia numa sala de jogo onde se deixa
assediar por uma mulher com o dobro da sua idade, com as mesmas carências e
com quem acaba por passar a noite.
Referi ao início o barroco metafórico de que é composto o livro.
Existem tantas referências culturais e artísticas quantas as abordagens ao
pitoresco quotidiano, recorrendo a um verdadeiro rendilhado metafórico que
tanto pode impressionar o leitor menos experiente como enfastiar quem já
conheça o melhor da obra de António Lobo Antunes. Na realidade, voltar a ler
Memória de Elefante depois de ler as obras mais recentes, é como
regredir, onde verificamos a veracidade das declarações do próprio escritor:
que é preciso limpar bem o livro de toda a ganga, de toda a sujidade. Ora, não
entendendo porém este rendilhado metafórico como lhe chamo como algo negativo
do livro (pois sem isso o livro nem sequer poderia existir), já não posso
qualificá-lo como uma das melhores produções deste escritor, por haver
recurso, direi escusado, a tanta comparação e variada metáfora. Enquadrado no
contexto da sua obra, percebe-se que é um dos primeiros livros do escritor
António Lobo Antunes muito verde onde se encontram, ligeiramente escondidas,
as garantias que o autor amadurecerá.
É a primeira das angústias, falando num todo: a catarse do escritor, os
primeiros passos para encontrar a mão e a voz que lhe ditará o estilo sui
generis que toda a vida vai obcecadamente procurar, a intenção de contar
não histórias mas o interior psicológico e afectivo das pessoas, buscando as
palavras para o indizível (segundo a sua noção de que os sentimentos são
anteriores às palavras), apanhar a vida toda entre as capas de um livro.
Memória de Elefante é, de facto, o início disso tudo.
por José Alexandre Ramos
21.11.2009
topo

Maristela
Guedes
Referências visuais em Memória de Elefante
Trabalho realizado por Maristela Guedes, artista
plástica brasileira e formada em Letras, sobre as referências em Memória de
Elefante a obras de arte. O trabalho contém informação sobre o autor e/ou
pintura citada, com a devida passagem do livro que refere a obra e/ou pintor
citados (da edição brasileira Objectiva, 2006).
Um trabalho que pelo seu tamanho está disponível
num ficheiro pdf, e que
os interessados podem fazer o
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aqui. Vale a pena!
Foi enviado pela autora via e-mail em 20.12.2009
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Milu
“Memória de Elefante” é o primeiro romance da
autoria de António Lobo Antunes, uma obra autobiográfica se avaliada à luz de
acontecimentos que tiveram lugar na vida do escritor, os quais constam da sua
biografia. A principal personagem desta narrativa é o próprio narrador, médico
psiquiatra que após a separação da sua mulher e filhas, mergulha num estado
depressivo profundo, chafurdando incessantemente e sem piedade nos recônditos
da sua consciência, arrancando à memória tristezas do passado, remoendo-as
incansavelmente, numa espiral de tortura, espicaçando a alma até fazer sangue.
Incapaz de resolver as suas angústias, vive o tormento de ter de si uma imagem
distorcida, sente-se um homem acabado, melhor ainda, um merdoso de merda,
julgando-se indigno da sua própria mulher. Provavelmente terá sido a sua
instabilidade emocional, que o levou a afastar-se da família numa errante
procura de si mesmo, encetando uma caminhada que o arrastaria ao fundo de um
negro e solitário poço. Evoca, exaustivamente, recordações de um passado que
teimam em permanecer vivas e dolorosas, marcado pelo abominável de uma guerra,
luta por exorcizar as imagens que se lhe impuseram aos olhos de forma tão
desumana. No meio deste turbilhão emocional, que descamba num mar de
reflexões, sobressai a admirável mestria com que o médico perscruta os
meandros da mente humana. A linguagem obtusa que aqui e ali pontua o discurso
serve, tão-só, para derramar um mar de raiva contida, que deveria ter sido
expulsa em seu devido tempo. Termino esta minha dissertação, confessando que,
durante a leitura deste livro tive momentos em que me ri e, livro que me faça
rir, é um livro abençoado!
por Milu
em
Milizinha- Blog
31.10.2008
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Moacyr Godoy Moreira
“Entre a Angola que perdera e a Lisboa que
não reganhara, o médico sentia-se duplamente órfão (...) Fizera da vida
uma camisola de forças em que se lhe tornava impossível mover-se atado
pelas correias do desgosto de si próprio e do isolamento que o
impregnava de uma amarga tristeza sem manhãs...”
Assim caracteriza-se o protagonista de
Memória de elefante, livro de estreia de António Lobo Antunes, recém
lançado no Brasil com 26 anos de atraso. Já bastante conhecido por aqui,
a obra demonstra a força narrativa do autor português, um dos mais
traduzidos e respeitados em terras ao redor do globo. A quarta capa do
volume ressalta, a propósito, uma citação da revista Vogue: “O maior
escritor vivo da língua portuguesa.” Critérios de valor à parte,
trata-se de um escritor com amplo domínio técnico e que produz livros de
particular força inventiva e narrativa.
Considerado pelo próprio autor como parte de
uma trilogia, junto com Os cus de Judas e O esplendor de Portugal, que
seriam na verdade um único romance em três partes, Memória de elefante
narra um dia na vida de um psiquiatra de Lisboa, mergulhado nas tramas
do passado em busca de elementos que o façam sentir-se vivo. A
existência angustiante que tortura o personagem, assombrado pela culpa
da separação da mulher e a distância insustentável das duas filhas, o
ambiente profissional degradado no qual segue imerso e as rememoração da
infância e adolescência, também conturbadas, alinhavam os movimentos
lentificados deste homem, ao largo do dia que dolorosamente se
desenrola.
Mesmo em meio à degradação humana, imagens
de dentes postiços, gengivas nuas e dentaduras, e a abundância de termos
como melancolia, tristeza e solidão, há esparsos momentos de beleza:
“Uma claridade mediterrânea aureolava as grades da varanda como se
banhassem num aquário iluminado pela lâmpada intensíssima de uma
primavera irreal.” E mais adiante: “ E lembrou-se do momento exacto
antes da ejaculação, quando o corpo, transformado numa vaga que sobe em
sucessivos roldões de prazer, cada vez mais forte, mais pesada, mais
densa, estoira de súbito numa explosão de espuma do tamanho do mundo, em
que pedaços nossos voam independentes de nós para cada canto do lençol,
e adormecemos liquefeitos, numa moleza sem cor, náufragos jubilosos da
ternura.”
Porém o leitor vai, ao longo do volume,
deparar-se muito mais com a dor, a incompreensão e a incompletude
constitutiva que assola a personagem, que belas paisagens lusitanas ou
momentos de deleite. Há mesmo instantes beirando o desespero que
assombra as tendências suicidas, aqui e ali.
Ao contrário do herói problemático de Lukács,
que caracteriza o romance romântico e realista, o médico aqui, mergulha
cada vez mais em florestas de incertezas e desconecta-se
significativamente de um projeto supostamente edificante proposto pelos
autores do século XIX. Considerando-se o contexto em que surge o livro,
o aspecto de modernidade do texto multiplica-se de maneira notável,
visto que surgiu imediatamente após a Revolução dos Cravos, momento
memorável em que Portugal livrou-se da nefasta ditadura de Salazar.
Neste nascer de uma nova nação, empenhada em
fazer-se destituída do ranço do totalitarismo, a fragmentação narrativa
que surge em variados momentos (“e de repente vi-me multiplicado até à
náusea nos espelhos biselados, dezenas de eus aflitos mirando-se uns aos
outros em pasmo de pavor”; “como se o cotovelo da esquerda e o da
direita funcionassem como talas que agüentavam unindo os ossos
estilhaçados de seu desespero e os impediam de se espalhar no chão”)
reflete a fragmentação da estrutura psicológica das personagens, que
numa leitura sustentada por pensadores como Theodor Adorno e Walter
Benjamin, permitem acessar o conteúdo oculto da história recente do
país, possibilitando reconstruir verdadeiramente a devastação causada
pela violência política progressiva.
A angústia do personagem exacerba-se ao
lembrar as filhas e da situação atual, após a separação: “A imagem das
filhas, visitadas aos domingo numa quase furtividade de licença de
caserna, atravessou-lhe obliquamente a cabeça num desses feixes de luz
poeirenta que os postigos do sótão transformaram numa espécie triste de
alegria.” Em meio à dificuldade de lidar com a situação insustentável da
rotina trabalho-lembranças-culpas, o narrador segue como que em transe,
colado ao personagem, como se a narrativa fosse em primeira pessoa,
sobrevivendo mais que vivenciando suas experiências. Em seus diálogos
imaginários com a ex-mulher, torna-se cada vez mais perturbado, odiando
a pessoa de Dylan Thomas, por exemplo, poeta por quem ela nutria grande
admiração, em termos literários.
A névoa da perturbação adensa-se e o onírico,
a memória e os fatos reais passam a não ter um limite muito claro,
misturando-se; fluindo de um domínio a outro sem a preocupação da
lógica, lógica esta que inexiste quando se trata do universo interior e
abalado pelo sofrimento que habita o íntimo de cada um de nós.
por Moacyr Godoy Moreira
em
Página
2
10.08.2006
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Ricardo Turnes
Em "Memória de
Elefante", primeiro romance de uma obra já extensa, António Lobo Antunes
escreve e expõe, com alguns rodeios mas sem papas na língua, muito
exactamente aquilo que lhe vai na alma, e nós, leitores, sorvemos o
texto como vindo de alguém que se utiliza da escrita com o único
propósito de exorcizar fantasmas pessoais; é um livro auto-biográfico e
auto-examinatório, em que o personagem central, um psiquiatra à beira
dos quarenta anos a braços com uma aguda crise de consciência, dorido
consigo próprio e descrente no mundo que o rodeia ("bati no fundo, bati
no fundo, bati no fundo"), retornado da guerra do ultramar, divorciado
há pouco tempo de uma mulher que ainda ama sofregamente, deambula por
uma cidade de Lisboa decadente, sombria, viscosa, e que parece ser a
metáfora exterior, reflexo maldito e irrecuperável, da dor que o aflige.
A acção, toda
ela murada de nauseabundos contornos citadinos, decorre ao longo de um
ou dois dias, durante os quais seguimos a par e passo as acções do
psiquiatra, ao mesmo tempo que penetramos na sua caixa de memórias de
infância, memórias da guerra, e recordações de uma vida de casado de
onde sobressaem a saudade de duas filhas-criança e a angústia de um amor
presente, ainda que apenas em sentidos, porque ausente de presença.
Todo o turbilhão
de recordações vai surgindo na cabeça do psiquiatra em catadupa, cada
fragmento do passado pescado à laia de ganchos descendo da realidade
quotidiana urbana - pormenores da vida real que por uma ou outra razão
captam a atenção do protagonista, lançando-o num passado de amarga
efervescência, prendendo-o a um lodo do qual não se consegue libertar.
Sobra espaço, no meio de um certo narcisismo teatral, para uma crítica
atenta ao costume social, ao hábito bairrista, e à decadência de valores
numa sociedade essencialmente hipócrita.
No estilo, que
de início se nos afigura como macarrónico e prolixo, Lobo Antunes
serve-se de imagens, metáforas e comparações até à exaustão - uma
exaustão a que nos habituamos com algum desconforto mas que acaba por se
tornar familiar a ponto de ser bem-vinda, e é nessa quase confusão de
palavras que insere, não sabemos nós como, o mais impressionante
conjunto de referências sociais e culturais de que há memória, com
evidente destaque para temas da literatura e da música. É também um
estilo que transpira a poesia, com belos momentos de criação literária,
mesmo quando é expressa vontade do autor enveredar pelo sórdido e pelo
rasca seboso, deixando-nos as narinas afogadas em odores peganhentos,
como aqueles lançados aos lençóis por uma mão frenética em noite escura
e solitária. E se é verdade que começamos por nos rir do uso ostensivo
de vocabulário-calão, às páginas tantas a coisa já não tem qualquer
piada; fala-se então muito a sério de dor e de saudade.
Este Lobo
Antunes de "Memória de Elefante" assemelha-se a um enorme diamante em
bruto, sujo nas faces, por lapidar, um diamante que mais tarde virá a
ser trabalhado pelo mais dotado dos artesãos, dando então origem a uma
valiosíssima peça de museu; por enquanto, conserva ainda uma quantidade
de arestas irregulares, uma sujidade térrea característica de alguns
anos de erosão, e uma certa refulgência fosca e distorcida -
propriedades que, não lhe retirando preciosidade, o tornam numa raridade
verdadeira e incomum (e desculpem-me o pleonasmo).
É uma surpresa
intensa, este livro, mesmo para quem à partida não espera nada, nem
sequer ser surpreendido. Talvez que seja altura, agora que o autor foi
galardoado com o prémio Camões, de descobrir Lobo Antunes – comece-se
pois pelo início…
Ricardo Turnes
em
Orgia Literária
21.03.2007
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