ANTÓNIO LOBO ANTUNES







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O ESPLENDOR DE PORTUGAL, de António Lobo Antunes: "o desencantamento do mundo e a desrazão"
Um povo que não reflecte sobre a própria O esplendor de Portugal, décimo segundo romance de António Lobo Antunes, publicado em Lisboa, em 1997, referencia o entrecruzamento da perspectiva história e da configuração de subjetividades presentes nas epígrafes selecionadas por nós. O título, sarcástico e instigante (bem ao gosto do autor), veio a ser retirado de um dos versos da letra do Hino Nacional, da autoria de Henrique Lopes de Mendonça, erigido como epígrafe do novo romance e apresenta um diálogo intertextual com o Hino adotado pela República ("Contra os bretões, marchar, marchar!") e seu sentido antibritânico incutido por causa do Ultimatum, como tão bem assinalou Carlos reis, no ensaio crítico publicado no JL e intitulado "Um romance repetitivo":
Heróis do mar, nobre povo, Este texto fundador de uma nacionalidade, uma vez recontextualizado em um período pós-colonial, leva o leitor a refletir sobre uma das questões formuladas pelos romances portugueses contemporâneos e que diz respeito ao vazio existencial, decorrente do colapso das grandes narrativas de transformação social como o comunismo e o socialismo, que eram, de algum modo, sistemas éticos transformados em projetos políticos. Finda a utopia revolucionária político-social, instaurou-se uma antiutopia, marcada pelo "desencantamento do mundo e pela desrazão". É exatamente isto que surge na plenitude criativa da escrita de Lobo Antunes: "brumas" recentes da memória e da História serão desveladas neste romance, que se configura como um diário (não canônico) de membros de uma família, seu poder e decadência em África, em períodos que antecedem a guerra colonial e após a independência das colônias. Neste tempo assinalado historicamente e cuja aventura é partir ou ficar, o leitor atento observará, segundo o ensaísta citado há pouco, a "refutação das mitologias públicas e privadas, como a pátria e seu esplendor, a família e seus rituais". O fulgor ou resplendor1, a grandeza ou a suntuosidade característicos de um momento solar e eufórico do Império português cederão lugar a um tempo pós-colonial e a espaços degradados: Angola destroçada, referenciada em ruínas e ocupada pelo FNLA, pela UNITA, tropas "fandangas" do Governo, sul-africanos, mercenários russos, americanos, cubanos, belgas, franceses e ingleses; os musseques e Luanda, a cidade inacabada e dos "defuntos"; Lisboa a desprezar e rejeitar os colonos recém-chegados, "despaisados" e desterritorializados na geografia do exílio (OEP, 256-7). Esta discursiva da pós-colonialidade, epopéia às avessas, inscreve uma "simultaneidade de sentires, filamentos de memórias refletindo-se no espelho quebrado da perda das identidades"2 ou da sua busca. Assim, as vozes múltiplas que preenchem as páginas dos diários se auto-definem e ao processo histórico, assinalando a sua condição de marginalizadas pela sociedade: Carlos, filho bastardo e mestiço, à espera inútil dos irmãos que expulsara de casa, em uma noite de Natal; Rui, epiléptico e isolado da família em uma casa de saúde, por transgredir regras de bom comportamento; Clarisse, fixada à imagem do pai e considerada prostituta, cujo meio de sobrevivência consiste em relacionar-se com vários homens, para manter o luxo a que se tinha acostumado; Isilda, mãe dos três, colonizadora expulsa da própria fazenda em África, ao ser inaugurada uma nova "ordem" social, sempre acompanhada de uma empregada africana – Maria da Boa Morte –, errante pelas picadas de Marimbanguengo, com "um pano do Congo amarrado à cintura e matacanhas nos dedos" (OEP, 177), na sua "sina de inventar um presente que deixou há anos de existir" (OEP, 87). Nesta epopéia às avessas, prenhe de armadilhas, Isilda insiste em recusar a realidade (julga que Maria da Boa Morte representa a própria morte e ordena que levante do chão, em que jaz ensangüentada – OEP, 367) e, em sua fuga, empreende uma viagem em busca de salvação (e não mais de riqueza, como no tempo da expansão ultramarina). Ela e sua tripulação jamais alcançarão a Ilha dos Amores, ficarão no meio do caminho, pois irão deparar-se com os soldados – adamastores bem sucedidos que concretizam a ameaça. Encontram, em sua navegação existencial e à deriva, o Cabo das Tormentas e não o da Boa Esperança. Ao pressentirem a trágica morte que se aproximava, compreendem que "estavam inchadas como os cadáveres da guerra à espera que o capim se fechasse sobre elas depois da partida dos pássaros" (OEP, 329). Ao referir-se ao seu ofício de escrever, durante uma entrevista, Lobo Antunes pronunciou-se: [...] o que os estrangeiros dizem que trago para a literatura não é mais do que a adaptação à literatura de técnicas de psicoterapia: as pessoas iluminarem-se uma às outras e a concomitância do passado, do presente e do futuro. "A escrita é um delírio controlado" – já lá dizia Antero e antes dele, Horácio: "Uma bela desordem, precedida de furor poético, eis uma ode."3 Esta singular escrita do autor torna-se capaz de revelar a crise da subjetividade coerente, o ensimesmamento e a "escrita de si", característica do período finissecular. Ao se pronunciarem, autobiograficamente, através de monólogos interiores ou solilóquios, na pseudo-escrita de um diário, as personagens iluminam-se umas as outras, através do fluxo da consciência. Desejos, emoções e paixões surgem como categorias políticas e, como afirma Olgária Matos, É por não ser nunca idêntica a si mesma, que a identidade se apresenta na grande metáfora da viagem – deslocamento mo espaço e no tempo, referida mo território interno do próprio viajante; nela arriscamos nossa própria transformação.4 Na configuração deste diário não ortodoxo (que não obedece a uma sucessão cronológica e nem contém confissões de uma única personagem, mas sim de várias), observa-se a fixação de memórias estilhaçadas e fragmentárias, imagens repetitivas e vozes entrelaçadas, passíveis de superpor tempos e espaços diferenciados. Há uma voz – a da Lena – única capaz de aludir a uma precisa sucessão temporal. Há uma data central e redundante – o 24 de dezembro de 1995 – que concentra solidões individuais e personagens interiorizados sobre si próprios. As evocações de Carlos, Rui e Clarisse ocuparão, respectivamente, cinco capítulos cada, distribuídos seqüencialmente pelas três partes que compõem o romance e ocorrerão do dia do natal, data simbólica do nascimento do Deus-menino, considerado, pela teologia cristã, "infinitamente perfeito, criador e regulador do universo, causa necessária e fim último de tudo o que existe." Portanto, não será gratuita, a inscrição irônica – FINIS LAUS DEO –, no último capítulo do romance, também assinalado por esta data, e que nos relata o assassinato da mãe, Isilda, esquecida pelos filhos, espoliada da fazenda de arroz, girassol, algodão e milho. No entanto, no momento da morte, em que é impossível "marchar contra os canhões" ou metralhadoras "dos tropas do Governo de gravatas coloridas, óculos escuros espelhados de armação metálica como se fosse de prata" (OEP, 395), torna-se capaz de vivenciar o simulacro ou o símile enganador da harmonia desejada. Vejamos: [...] mas não tinha medo por ser dia, os tropas, mesmo o dos botins de verniz não iam roubar-me nem levar-me com eles nem fazer-me mal, não havia um só quarto às escuras em Malange, erguiam as metralhadoras, fixavam-me com a mira, desapareciam atrás das armas, o modo como os músculos endureceram, o modo como as bocas se cerraram e eu a trotar na areia na direcção dos meus pais, de chapéu de palha a escorregar para a nuca, feliz, sem precisar de perguntar-lhe se gostavam de mim. FINIS LAUS DEO (OEP, 395) É interessante observar que as outras datas aleatórias que surgem no romance descrevem um percurso fragmentário (de 24 de julho de 1978 a 7 de setembro de 1995) e são preenchidas pela voz desta personagem feminina que descreve o apogeu econômico do início da colonização em África e sua derrocada gradativa, as relações entre as diferentes raças e classes sociais, a violência, o desamor, a traição, a coerção e os genocídios praticados. Sua enunciação discursiva é reiteradamente marcada por determinadas frases significativas, como, "a casa está morta" (OEP, 92), "por que sou mulher" (OEP, 108) e "Angola acabou para mim" (OEP, 237) ou "A tua casa é do povo camarada" (OEP, 87). Além disso, esta personagem, cujo ego reconstituído para uma satisfação narcísica busca escapar da morte cruel, ao vivenciar o desalento tematiza a questão do espelho e viaja dentro de sua própria interioridade: Quando à noite me sento ao toucador para tirar a maquilhagem pergunto-me se fui eu que envelheci ou foi o espelho do quarto. Deve ter sido o espelho: estes olhos deixaram de me pertencer, esta cara não é a minha, estas rugas e estas nódoas na pele serão manchas da idade ou ácido do estanho a corroer o vidro? Dantes, no tempo do meu pai...(OEP, 51) Esta freqüente intersecção de planos temporais, evidenciada no exemplo citado, percorre toda a narrativa e permite aos personagens angustiados e desamparados a ilusão de assumirem-se como demiurgos ou possíveis deuses da criação, ao paralisarem o tempo e fixarem imagens ou sons obsediantes, como por exemplo, a associação feita por Carlos entre o bater do pêndulo do relógio e o do coração: [...] quando eu não tinha adormecido, não podia adormecer, nunca poderia adormecer, tinha de ficar horas e horas de olhos abertos, quieto no escuro para que ninguém morresse dado que enquanto qualquer coisa no meu peito oscilasse da esquerda para a direita e da direita para a esquerda continuávamos a existir, a casa, os meus pais, a minha avó, a Maria da Boa Morte, eu, continuaríamos todos, para sempre, a existir. (OEP, 77) Constata-se, no entanto, que no mundo pós-moderno e pós-colonial, o desamparo virou desalento, pois os sujeitos da escrita vivem permanentemente numa condição de risco e de perda dos referenciais que funcionavam como interlocutores. Ao especularem sobre o próprio destino, vêem-se refletidos no espelho do país e suas identidades surgem estilhaçadas e tornam-se simulacros, em meio a fragmentos e ruínas reais ou simbólicas. Em O Esplendor de Portugal, Lobo Antunes define o labirinto crítico da situação política e econômica da colonização portuguesa em África, através da voz de uma das personagens evocadas pela filha: O meu pai costumava explicar que aquilo que tínhamos vindo procurar em África não era dinheiro nem poder mas pretos sem dinheiro e sem poder algum que nos dessem a ilusão do dinheiro e do poder que de facto ainda que o tivéssemos não tínhamos por não sermos mais que tolerados, aceites com desprezo em Portugal, olhados como olhávamos os bailundos que trabalhavam para nós e portanto de certo modo éramos os pretos dos outros da mesma forma que os pretos possuíam os seus pretos ainda em degraus sucessivos descendo ao fundo da miséria, aleijados, leprosos, escravos de escravos, cães, o meu pai costumava explicar que aquilo que tínhamos vindo procurar em África era transformar a vingança de mandar no que fingíamos ser a dignidade de mandar, morando em casas que macaqueavam casas européias e qualquer europeu desprezaria considerando-as como considerávamos as cubatas em torno, numa idêntica repulsa e idêntico desdém... (OEP, 255) No entanto, o fim deste longo processo de desterritorialização colonial suscita, como nos aponta Boaventura de Souza Santo, em Pela mão de Alice: o social e o político na pós-modernidade, diferentes movimentos de reterritorialização (o país retoma, depois de cinco séculos, os limites de seu território). E, em decorrência disto, invertem-se os papéis antes definidos, o que obriga os personagens, expulsos de Angola, a sentirem-se excêntricos e marginalizados em sua própria pátria. Este mesmo procedimento pode ser observado no romance As naus, publicado em 1988, em que figuras emblemáticas da História-pátria tiveram suas identidades de base redimensionadas e, carnavalizantemente, minimizadas. Se antes eram pessoas autênticas em relação ao seu desejo, de acordo com projetos existenciais definidos, agora apresentam-se combalidas pela dor e pela solidão, brutalmente afetadas em seu cotidiano expectante e vazio, impossibilitadas de viver como desejariam. Todas essas subjetividades malogradas vivenciam a perda das certezas e da estabilidade adquirida. Ao privilegiar o reflexivo, o desdobramento e a consciência infeliz, os autores contemporâneos configuram a antiutopia, capaz de deflagrar, segundo Baudrillard, a "contra-razão, a desterritorialização, a indeterminação do sujeito e da linguagem, a neutralização de todos os valores, da morte da cultura."5 Em O esplendor de Portugal, isso evidencia-se, inclusive, através da delação e da perda dos valores humanistas. Em uma das cenas mais chocantes, Isilda indica, friamente, aos tropas do Governo, o amante e chefe de polícia escondido dentro de um tronco de árvore, o que o leva a ser sumariamente executado. Observa-se, no espaço romanesco, a impiedade das personagens, que se ferem umas às outras sem o menor escrúpulo. No entanto, o que nos fascina nos romances de Lobo Antunes é que qualquer registro trágico surge acompanhado de uma atitude carnavalizadora e transgressora, fazendo com que o leitor desate a rir. Mas convém lembrar que, dentro do contexto de O esplendor de Portugal, isto transforma-se no grotesco, como atestam, particularmente, duas cenas: o noivo bêbado estatelado no carpete a proteger-se do futuro sogro "que lhe tocava com o bico do sapato, intrigado, a assegurar-se que o embrulho de linho sujo respirava e vivia" e a dizer: "– Onde diabo desencantaste este palhaço Isilda?" (OE, 57) e o menino Rui a destroçar todos os brinquedos de corda encontrados em uma retrosaria ("ursos de feltro, patos de plástico, pingüins, girafas, sapos"), a julgar que troçavam dele, transtornado com um "panda que pestanejava vagidos mecânicos" e dizia, sem parar, "My name is Jimmy", ao passo que a vendedora, atônita, perguntava-se: "– O que é isto?", enquanto uma "velhota de luxo carregado acompanhada do neto gordo e assustadiço de calções", ordenava: "– Telefone à polícia menina Graciete que é um doido". (OEP, 169) O humor, portanto, torna-se uma forma de auto-irrisão, método de distanciamento e forma de compensação, o que nos possibilita afirmar o primado do "freudiano princípio do prazer que tenta vingar-se de um adverso princípio da realidade."6 Em As naus, por exemplo, há relatos que configuram o riso libertador e autocomplacente que se sobrepõe a um desgostoso e desgastante real. O casal anônimo, que verbaliza a situação dos retornados de África, após a descolonização, e que se considera "múmias sem préstimo espantadas", torna-se capaz de carnavalizar a situação opressora. Na ficção de Lobo Antunes, a energia criadora alia-se ao conhecimento técnico das palavras, revelando uma maturidade de escrita absoluta, capaz de comover o leitor, fazê-lo rir e sentir-se cada vez mais perto da vida. Esta forma cultural portuguesa de estar no mundo revela que o esplendor de Portugal, numa época de "desencantamento do mundo e de desrazão", reside, magistralmente, no espaço da escrita. Referências bibliográficas ANTUNES, António Lobo. O esplendor de Portugal. Lisboa: Dom Quixote, 1997. ------. As naus. Lisboa: Dom Quixote, 1988. BAUDRILLARD, Jean. América. Trad. de Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Rocco, 1986. REIS, Carlos. António Lobo Antunes. Um romance repetitivo. JL: Jornal de letras, artes e ideias. Lisboa: 705. 22 out-4 nov., 1997. SANTOS, Boaventura de Sousa. Pela mão de Alice: o social e o político na pós-modernidade. Porto: Ed. Afrontamento, 1994. Notas 1. REIS, Carlos, António Lobo Antunes – Um romance repetitivo. JL: Jornal de Letras, artes e idéias. Ano XVII, nº 705, 22 de out. a 4 de nov., 1997. P. 24. 2. SILVA, Rodrigues da. Do outro lado do céu... Ensaio publicado no JL, Ano XVI, nº 677, 25 de set. a 8 de out., 1966 sobre O manual dos inquisidores, de António Lobo Antunes. 3. LOBO ANTUNES, António. A constância do esforço criativo. JL, Ano XVI. nº 677, 25 de set. a 8 de out., 1996, p. 14. 4. MATOS, Olgária. Vestígios: escritos de filosofia e crítica social. São Paulo: Palas Athea, 1998. p. 151. 5. BAUDRILLARD, Jean. América. Trad. de Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Rocco,1986. p. 84 6. TEIXEIRA, Rui de Azevedo. A guerra colonial e o romance português. Lisboa: Editora Notícias, 1998. p. 213
por Ängela Beatriz Faria (UFRJ) recolhido do site da Associação Internacional de Lusitanistas [não datado]
A marca do Lobo: estilhaços da pós-modernidade
Uma das marcas da modernidade é a
quebra com o tradicional, e se tratando de literatura, muitas vezes
essa quebra se evidencia de forma nada sutil. Atualmente se
convencionou chamar as novas tendências artísticas de pós-modernas,
que tratam exatamente de temáticas diversas, porém, a forma adquire um
significado especial. É um ranço do movimento antropofágico que
permeou as correntes estéticas do início do século XX, mas que na
chamada pós-modernidade adquiriu proporções maiores.
Daniel Osiecki 04.04.2008
Impressões sobre o romance "El Resplandor de Portugal"
Ler o romance de António Lobo Antunes, "O Esplendor de Portugal", é como ler espelhos inquietos. Mas não num lugar asséptico, cómodo e decente para tão plácida tarefa, mas sim lê-los de pé ou de cócoras lá onde eles apodrecem já esquecidos e também lá onde mal vivem não menos esquecidos.
Luanda e Lisboa, Lisboa e Luanda, África e Europa definitivamente, malditas ambas na sombria e decadente imagem da memória ao menor fulgor de esperança. Assim são as personagens. Sente-se que as imagens entram e saem em si confundidas como na forja do espelho corrompido as silhuetas que não sabem onde começa a sombra que são e a sombra que foram. Para ir dotando de sentido o que não tem sentido, das vidas derrotadas para lá da culpa. Vidas atadas a um esplendor urdido sobre a miséria dos outros e como tal miserável.
África ofereceu-lhes para além da ambiciosa oportunidade de medrar economicamente, a possibilidade de serem um grotesco arremedo desse estatuto de dignidade que na orgulhosa e decrépita Europa lhes era negado. Procuravam, e assim o exprimem, em África, algo mais que riqueza, a estima social, a necessária reafirmação pessoal da sua singular condição, e um dia descobrem nos fracos e humilhados olhos dos negros que os servem e que não são senão os negros dos brancos filhos da metrópole. E o que é mais terrível, é que em tão pobre viagem tenham dilapidado não só as suas vidas como também a de milhares de homens. Mas como compreendê-lo, simplesmente não podem permitir-se a tal, devem-se à legítima vontade de sobreviver, e que melhor para eles que viver através da memória para recordar sem outra culpa que a de não permitir nunca que a imagem os mostre terríveis e completos no espelho de sua alma.
Os povos derrotam-se homem a homem, e uma vez derrotados, tudo quanto nasce das suas mãos é feito sob este terrível desígnio, até que homem a homem se levantam como povo, para um esplendor fugaz mas capaz de dotá-los da dignidade que como povo merecem. A colonização junto com a ditadura sufocou e derrotou Portugal, a revolução dos cravos elevou-o à mais digna das vitórias. Essa é uma flor oculta que Antunes não define, mas sobre a qual cimenta a magnífica catedral dos seus sonhos.
por José Romero P. Seguín, escritor enviado por e-mail em 29.08.2006 [traduzido do espanhol por José Alexandre Ramos]
A sobreposição dos espaços em O Esplendor de Portugal
Espaço é sinônimo de simultaneidade, e é por
meio desta que se atinge a totalidade da obra.
Bastante caracterizada pela sua fragmentação, a
obra contemporânea nos permite também discutir a nova concepção do homem
moderno sobre a realidade, que não é mais concebida na forma romance somente a
partir do tempo cronológico, em que passado, presente e futuro se dão
linearmente sem se misturarem. Ao contrário disso, O Esplendor de Portugal
denota a apreensão da realidade como aquela que é criada e recriada pelo
homem, a partir de sua consciência; e com ele, concomitantemente às suas
acções no meio: “espaço e tempo, formas relativas da nossa consciência, mas
sempre manipuladas como se fossem absolutas, são, por assim dizer, denunciadas
como relativas e subjetivas” (ROSENFELD, 1976, p. 81). Dessa forma, quando se fala em sobreposição de espaços neste trabalho, procura-se apontar para o deslocamento repentino dos narradores-personagens entre um espaço e outro, independentemente se esse deslocamento é realizado entre o chamado espaço abstrato, recuperado no passado pelas lembranças daqueles e, de certa maneira, recriado pela memória de cada um, e o espaço concreto, no qual o personagem se encontra no tempo presente.
a Lena gorda e de cabelo pintado acabou de
secar os pratos, empilhou-os no armário, tirou as luvas e saiu para a sala
onde estava o pinheiro de Natal (...)
Sabemos que o ato de leitura se dá de maneira
linear e sequencial, ou seja, “os signos dispõem-se uns depois dos outros numa
sucessão temporal ou espacial” (FIORIN, 2006, p. 65), por isso para alcançar o
efeito de simultaneidade, o de que há diversas coisas acontecendo ao mesmo
tempo, claramente demonstrado no trecho selecionado e alcançado durante todo o
romance, é preciso causar uma aparente desorganização estrutural, “uma
continuidade que aparece no seio da descontinuidade" , visto que se segue a
ordem da consciência, do fluxo psíquico, alterando, portanto, a ordem comum em
enredos tradicionais, que se baseavam na lei de causa e efeito: “com seu
encadeamento lógico de motivos e situações com seu início, meio e fim” (ROSENFELD,
1976, p. 84). Sendo assim, podemos fazer uma analogia entre o que afirmou
Joseph Frank a respeito da poesia moderna e a estrutura de fluxo de pensamento
e a fusão dos tempos e espaços desenvolvidas em O Esplendor de Portugal: “A
relação do sentido é completada somente pela percepção simultânea, no espaço,
de grupos de palavras que não possuem nenhuma relação compreensível entre si
quando lidos consecutivamente no tempo” .
Assim, como pudemos perceber no exemplo, em O
Esplendor de Portugal, as orações e o enredo, que é extremamente
recortado, não obedecem a uma ordem lógica pré-estabelecida, e, por isso,
exige a leitura atenta, visto que nem os narradores se mantêm os mesmos,
revezando-se dois, um a cada capítulo (Carlos e Isilda na Primeira Parte; Rui
e Isilda na Segunda e Clarisse e Isilda na Terceira), o que oferece ao leitor
diferentes visões sobre um mesmo espaço compartilhado por todos eles no
passado. Logo, podemos afirmar que a sobreposição dos espaços é realizada pelo
menos de duas maneiras: através do deslocamento psíquico dos personagens entre
o espaço de Portugal, no presente, para o de Angola, no passado; e através das
narrações desenvolvidas por cada um, que ao mesmo tempo em que se sobrepõem,
pois cada um irá expor seu ponto de vista, se complementam, visto que abordam
situações subjetivamente, dando ao romance o caráter de mosaico, “de uma série
de elementos descontínuos” (BRANDÃO, 2007, p. 210) que se encontram na
totalidade do romance e formam o todo compreensível.
Encontramos no texto a fusão entre o espaço
concreto (do presente) e o espaço abstrato (do passado ou do futuro), que
segundo Luis Alberto Brandão, em seu artigo Espaços literários e suas
expansões, podem ser “partes autônomas, concretamente delimitadas, mas que
podem estabelecer relações entre si”, ao mesmo tempo em que são também “a
interação entre todas as partes, aquilo que lhes concede unidade, a qual só
pode se dar em um espaço total, absoluto e abstrato, que é o espaço da obra”
(BRANDÃO, 2007, p.210). Exemplo disso está em um dos fragmentos finais do
romance, em que, por se encontrar em um angustiante espaço concreto, devastado
pela guerra, Isilda imagina-se em uma reunião familiar na noite de Natal: ela
cria um espaço abstrato onde realiza o seu grande desejo de estar junto à
família. Vemos, então, o espaço da guerra e o outro da ceia de Natal se
formarem como partes autônomas, a concreta e a abstrata, e mesmo assim
manterem relações entre si, ao mesmo tempo em que se unem formando o espaço
absoluto:
por Marcela Teixeira Barbosa em MartigoS 13.12.2008
Antunes, António Lobo. O Esplendor de Portugal. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.
A obra do escritor português António Lobo Antunes (também psiquiatra e ex-combatente na Guerra de Angola) não é, ainda, muito conhecida no Brasil, onde somente sete de seus dezenove romances foram publicados até o momento.
Pouco a pouco, entretanto, vemos surgir ações que contribuem para a difusão de sua obra em nosso país, como é o caso, por exemplo, da presença de seu segundo romance, Os cus de Judas (lançado em Portugal, em 1979), entre os livros indicados para o vestibular 2006 da UNICAMP.
Romance após romance, percebemos que a perplexidade e horror frente a guerra e a sociedade contemporânea ganham corpo não só nas situações narradas – que envolvem ex-combatentes ou pessoas comuns que seguem sua vida sem estímulo, abandonadas pelas instituições nas quais confiavam; como também na linguagem e na estrutura dos textos, principalmente com o uso do disfemismo como procedimento de escrita predominante.
No contato com o conjunto da obra desse autor, observamos que o romance O esplendor de Portugal ocupa lugar central por trazer, de forma explícita, esses procedimentos de escrita desenvolvidos de forma bastante complexa e com notável habilidade.
Em O esplendor de Portugal, o ponto de vista principal é o dos portugueses nascidos em Angola, gerações que cresceram e viveram toda sua vida dentro do (ou sob o) pensamento colonialista, e que subitamente se viram frente ao violento processo de independência da colônia, desprezados e rejeitados por suas duas “pátrias”. E esse sentimento de rejeição atravessa toda a história, explicitado de maneiras diversas no discurso de quase todos os principais narradores – Isilda, Rui, Clarisse e, principalmente, no de Carlos (o filho mais velho de Isilda, adotivo e mestiço), em cujo relato verificamos sentir-se rejeitado tanto pela mãe verdadeira – Carolina – que o vende à esposa do pai; como pela mãe adotiva – Isilda – como se esta o houvesse obrigado a partir para Portugal por sentir vergonha de sua origem mestiça; e até mesmo por sua própria esposa, Lena, que, segundo ele, se recusa a engravidar de um mestiço.
Como já nos referimos anteriormente, em O esplendor de Portugal um procedimento de escrita é muito utilizado para explicitar e ressaltar as emoções, memórias e medos dos narradores: o disfemismo, o ataque verbal direto, sem meias-palavras, utilizado de forma tão forte, singular, expressiva e poética na escrita de Lobo Antunes e que pode ser relacionado tanto ao objetivo do autor de revelar toda a crueldade da guerra e do sistema colonizador português, quanto ao fato de sua condição de médico, que vê o avesso de tudo o que vive.
Daí a predominância do feio, do asqueroso, da doença, do ridículo, da ferida, do sangue, da rejeição, que caracterizam o vocabulário de O esplendor de Portugal, esse “romance que não conhece a expressão lateral, ou, se a utiliza, a volve de negatividade.”
O trecho que reproduziremos a seguir é um dos melhores exemplos existentes no romance da utilização cruel e poética do disfemismo:
Devia ter desconfiado que Angola acabou para mim quando mataram as pessoas duas fazendas a norte da nossa, o homem de pescoço para baixo nos degraus, isto é, pregado aos degraus por um varão de reposteiro que lhe atravessava a barriga, a mulher nua de bruços na desordem da cozinha, muito mais nua do que se estivesse viva, sem mãos, sem língua, sem peito, sem cabelo, retalhada pela faca de trinchar com um gargalo de cerveja a espreitar-lhe das pernas, a cabeça do filho mais velho fitando-nos de um ramo, o corpo que a serra mecânica decepara em fatias espalmado no canteiro, o filho mais novo nos fundos(...) misturando as tripas com as tripas do cão, dedadas de sangue nas paredes, os tarecos tombados, as molduras em pedaços, as cortinas das janelas abertas varrendo o silêncio e o cheiro das vísceras...
Para concluir, gostaríamos de ressaltar que em O esplendor de Portugal seus diversos narradores apresentam versões diversas de uma mesma história, sem, entretanto, contradizerem-se uns aos outros. Cada nova versão retoma a anterior, acrescentando a ela (e por conseqüência, ao romance) uma riqueza de detalhes e nuances que nos aproximam dos sentimentos dos personagens de forma raramente encontrada na literatura ocidental.
Márcia Valadares (Mestre em teoria da Literatura pela Faculdade de Letras da UFMG. Directora executiva do Centro de Estudos Cinematográficos de Minas Gerais - Brasil) em TXT [não datado]
O real, o imaginário e as lembranças
edição brasileira Rocco
A estética da capa de O Esplendor de Portugal é bastante simples, apesar da cor bastante chamativa. No entanto, o diferencial deste não está fora, mas sim em seu interior, isto é, o texto do escritor português António Lobo Antunes.
Neste, o 13º romance de Antunes, o belo e o cruel de Angola, África, são retratados de maneira inteligente. Outro ponto interessante é o jogo com o leitor, seja na questão do narrador ou nas disposições de certos trechos da obra.
Com um "Q" de Roberto Drummond, Lobo Antunes inclui em sua história personagens com bastante veracidade e outros pouco ficcionais. A história é de uma família de portugueses, brancos, abastados, que vivem do plantio do algodão em Angola.
O pai, por azar dos filhos, é um pobre coitado, alcoólatra e completamente fraco. Sua mulher tenta sobreviver, pois seus três filhos são criados em meio a violência do preconceito. Em meio a flashbacks o leitor conhece estes filhos: o primogênito Carlos, bastardo e mestiço, Clarisse, uma mulher completamente mundana e Rui, epiléptico que sempre está internado em um hospício.
Um leitura bastante diferente das que muito (para não se dizer, sempre) se vê por aí. Não há como negar o quanto é difícil ler este livro de uma "tacada" só, mas é ainda mais fácil dizer que apesar da dificuldade, o texto e seu contexto são fatores primordiais que seguram e chamam o leitor para dentro da obra, criando rapidamente um vínculo entre leitor e obra. É simplesmente fantástico mergulhar neste universo de lembranças e versões de uma mesma história. Por tanto seja rápido, aproveite e arrisque-se nesta boa leitura!
[não datado]
Comentário a O Esplendor de Portugal
«(...) porque não entendemos Angola mesmo tendo
nascido em Angola, não a terra, a variedade de cheiros, a alternância de
cacimbo e de chuva, de submissão e fúria, de preguiça e violência, Angola,
este presente sem passado e sem futuro em que o passado e o futuro se incluem
desprovidos de qualquer relação com as horas, os dias, os anos, a medida
aleatória dos calendários, quando o único calendário é a chegada e a partida
dos gansos selvagens e a permanência das águias crucificadas nas nuvens». -E é
nesta incompreensão martirizante e permanente que se encontra mergulhado O
Esplendor de Portugal, última obra de António Lobo Antunes, cujo conteúdo nos
lembra a inglória dos nossos «egrégios avós» no que toca ao colonialismo
português, nódoa que de alguma forma denigre a história da nação e contrasta
com a abertura do livro que é a transcrição do hino nacional.
citado daqui [não datado]
O Esplendor de Portugal é um romance da autoria
de António Lobo Antunes que desenrola com admirável mestria o cenário, qual
quadro impressionista, da colónia de Angola, no apogeu da colonização e no
degradante período pós-colonial. Através das suas personagens, nomeadamente
aquando do seu papel de narradores, somos levados a viajar no tempo e no
espaço do que foram as suas vidas.
09.01.2010
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versão 6.1
propriedade e edição:
José Alexandre Ramos
sob uma