este título foi o livro do mês de Abril de
2008 no blogue
Leitura Partilhada

Diogo Mainardi
António Lobo Antunes é um dos mais importantes escritores
portugueses da atualidade. Leitura obrigatória, portanto. Brasileiros
precisam conhecer os escritores portugueses, portugueses precisam
conhecer os brasileiros. É a ordem natural das coisas, para citar o
título de um de seus romances precedentes. Por menos que se goste de
Lobo Antunes, é necessário publicá-lo, é necessário lê-lo, é necessário
resenhá-lo, mesmo quando se trata de seus livros mais fracos. Literatura
demanda uma certa dose de disciplina, de rigor.
Rigor, de fato, é o termo adequado para definir O Manual dos
Inquisidores (Editora Rocco; 380 páginas), lançado em Portugal
em 1996. Com um rigor inquisitorial, Lobo Antunes reconstrói os últimos
anos de vida de um potente ministro da ditadura Salazar, colhendo
depoimentos de todas as pessoas que o circundam. O filho, no dia de seu
divórcio, recorda a quinta em que moravam e a ruína financeira de sua
família, logo depois do fim do regime. A filha do caseiro fala a
respeito das violências sexuais que sofreu por parte do ministro, e a
fúria que ele manifestou ao tomar conhecimento da queda da ditadura,
quando enxotou a coronhadas todos os empregados da quinta, acusando-os
de ser comunistas. A filha ilegítima do ministro com a cozinheira,
criada por uma viúva cujo marido morreu devorado por um crocodilo em
Angola, lembra o momento em que foi apresentada pela primeira vez ao pai
e ao irmão. A cozinheira relata a chegada à quinta de Marcelo Caetano,
escolhido como sucessor de Salazar, apesar da hostilidade do ministro e
de seus amigos militares, que viviam planejando golpes para derrubá-lo.
O próprio ministro, agora internado numa casa de repouso, senil e
incontinente, revive o levante de Angola em 1961, e o terror que sentiu
naquela circunstância.
Herança da ditadura
— Em meio a tantos fragmentos de história, o que falta ao romance é uma
trama propriamente dita. Há o episódio da jovem Milá, contratada para
interpretar o papel da antiga mulher do ministro, Isabel, que o
abandonara pelo amante, muitos anos antes. Milá é paga pelo ministro
para vestir-se como Isabel, comportar-se como Isabel, responder ao nome
Isabel. Mas esse é apenas um detalhe meio patético do livro. O ponto
central de O Manual dos Inquisidores, na verdade, é seu pano de
fundo político e histórico: a passagem das quatro décadas de ditadura à
chamada Revolução dos Cravos, de 1974. Lobo Antunes apresenta o
totalitarismo salazarista de modo perfeitamente convencional,
caracterizando-o como um regime arcaizante, que imobilizou Portugal em
suas velhas estruturas do começo do século. Nenhuma novidade em relação
ao que já sabemos. Por outro lado, ele tenta mostrar a herança da
ditadura por meio dos personagens que transitam de uma época para a
outra, como o filho do ministro, esmagado pela figura autoritária do
pai.
É possível que O Manual dos Inquisidores, descrito dessa maneira,
pareça pouco atraente. Trata-se de uma injustiça do resenhista. Lobo
Antunes é um autor corajoso que sempre se aventura em arriscadas
experiências narrativas. E o faz na nossa língua, usando-a bem melhor do
que todos nós. Ou seja, é fundamental, mesmo quando erra. Leitura
obrigatória.
por Diogo Mainardi
em
Abril.com
08.07.1998
topo

Eduardo Alves
Por entre uma salada russa feita de
ingredientes sociais com bêbedos, pobres, oportunistas e simples
sonhadores surge um conjunto restrito de pessoas. Escolhidas pelo autor
para constarem como personagens de monta num livro histórico e
intemporal. O burburinho social que se vive logo após o mês de Abril do
ano de 1974 serve de sustentação a este retrato colectivo que António
Lobo Antunes imprime na chapa da escrita. Como uma foto feita de
palavras, o médico-escritor, narrador por excelência, transforma-se na
consciência de um povo que tinha acabado de cair por terra e começa
agora a erguer-se do chão.
O fascismo aparece como grande herança do regime salazarista. Isto
porque, na óptica deste antigo combatente, a sociedade mal se
transformou com a revolução, apenas se maquilhou para surgir com uma
outra imagem, mas da mesma forma. Desigual, carregada de vícios e
sustentada por jogo de poder. Um dos ministros de Salazar ganha mesmo o
estatuto de personagem principal em dezenas de páginas do romance. A
crueldade das decisões vai contrastando com a capacidade de bem-querer a
alguns. Poder e liberdade de acção extravasam para alguns, enquanto a
maioria, os pobres que já estavam na miséria, sentiam na pele e no corpo
os malefícios destas políticas. Para aqueles que levantavam a voz, a
polícia vinha com “estalos evangélicos” colocar o tom de voz num timbre
mais baixo. Leitura intemporal, que ainda hoje encontra muitas
semelhanças com a realidade.
por Eduardo Alves
em
urbi et orbi
Novembro de 2004
topo

Gonçalo Figueiredo Augusto
Que livro é este que provoca sorrisos e comove
ao mesmo tempo? Que livro é este em que o humor se mistura com a mais violenta
das realidades? O Manual dos Inquisidores é esse livro que nos apresenta -
relato comentário relato comentário relato comentário - um Portugal antes e
depois de uma golpe de estado. Logo no primeiro relato é-nos introduzido um
ministro, um amigo de Salazar, um homem de cigarrilha e suspensórios, de
chapéu
Faço tudo o que elas querem, mas nunca tiro o
chapéu da cabeça para que se saiba quem é o patrão
um ministro, ou director-geral, ou outra coisa
do género que só conhecemos pela voz dos outros até chegarmos ao final do
livro. Um ministro que vamos conhecendo pela voz do filho, pela voz da
governanta, pela voz da amante, pela voz de uma filha clandestina... Há uma
quinta em Palmela, outrora digna de visitas de Salazar e de repente abandonada
ao capim, aos limos do pântano e aos fantasmas do passado. O livro é uma
constante oposição entre passado e presente. Ou se calhar não uma oposição já
que passado e presente coexistem em permanente nas personagens e mesmo em nós
próprios. A inquisição ao passado ganha forma à medida que o livro se aproxima
do fim. E se repararmos bem o livro não tem fim, de facto. Poderia dizer que o
livro retrata Portugal, mas isso não é verdade. O livro vai mais longe. As
personagens vão expondo página após página um país hipócrita e mesquinho, uma
realidade onde a violência, a ganância e a mediocridade coabitam. Os cenários
podem mudar aparentemente - Palmela, Alverca, Odivelas, Praça do Chile... -
mas na verdade é todo um mesmo cenário, da mesma forma que a quinta de Palmela
é o refúgio onde todos os relatos vão mais tarde ou mais cedo parar. Não sei
dizer se o livro espelha um Portugal de ditadura e um Portugal de
pós-ditadura, porque na verdade o país é rigorosamente o mesmo. Apenas as
pessoas vão cambiando a reboque das marés que se vão e vêm. Até que chegamos
ao final sem chegarmos ao fim. Francisco, o senhor ministro ou seja lá o que
for, recorda os horrores em África e remata, como uma súplica
peço-lhe que não se esqueça de dizer ao
pateta do meu filho que apesar de tudo eu
da mesma maneira que engolimos em seco depois de
fechar o livro e o pousarmos no colo sem entender muito bem se o livro acabou
ou se nós mesmos acabámos de recomeçar.
por Gonçalo Figueiredo Augusto
em
Conhecimento do Inferno
26 Setembro 2009
topo

José
Alexandre Ramos
O Manual dos Inquisidores, de António Lobo Antunes: Antes e depois
O décimo primeiro título da obra de António Lobo Antunes é, antes de tudo,
agora que vão mais de uma vintena de livros escritos, uma ponte que liga
a obra anterior à mais actual. Pode muito bem servir como ponto de
partida para o leitor iniciante neste autor: prepara-o para prosseguir
cronologicamente a fim de se inteirar da evolução do estilo da escrita
até aos dias de hoje, ao mesmo tempo que lhe inspira curiosidade para
ler a obra anterior, de mais fácil leitura mas nem por isso menos densa
e rica. Para os leitores menos acostumados a um discurso analéptico onde
muitas vezes se perde o fio condutor – porque a António Lobo Antunes não
lhe interessa contar uma história mas expor o ser humano que somos –,
onde uma única voz interpreta a voz de todas personagens, e resumindo:
para o leitor que não está habituado a outro tipo de escrita diferente
da do romance comum, com personagens, actos, cenários, espaços e tempos
claramente definidos, iniciar-se na leitura de Lobo Antunes deverá ser
gradual, começando do princípio, para que se habitue a incarnar os
livros um a um para poder digerir os mais ricos e complexos sem grande
dificuldade, principalmente a partir de Que Farei Quando Tudo Arde?.
Essa iniciação pode ser feita com O Manual dos Inquisidores,
cujo tema do antes e pós 25 de Abril, recorrente mais ou menos na
maioria dos livros publicados até 2000, entusiasmará o leitor curioso
para saber de nós portugueses durante todo esse período e para além
dele.
Porém, desengane-se quem poderá pensar que se trata apenas de um romance
de carácter político ou social, e desengane-se também quem procura aqui
indícios de um romance histórico. O Manual dos Inquisidores, na
continuidade dos anteriores, retrata personagens que nos são próximas,
não tanto pelo que viveram na transição do regime político, mas pela sua
condição humana: a vaidade, o poder, a frustração, a resignação, a
fraqueza, a desilusão, a sua soberania e o desamparo, a ascensão e a
degradação. Ingredientes que misturados num caldo de factores
psicológicos e morais nos dá a matéria de que somos feitos, nós os
portugueses: com muita facilidade nos podemos ver retratados, nos
reconhecemos nas personagens que vão surgindo gradualmente, como que se
apresentando umas às outras. Um jogo de espelhos, de que muito fala o
autor nas suas entrevistas.
Se quiséssemos resumir o livro à história que tem por trás como argumento,
diríamos que é um livro sobre um influente ministro do antigo regime,
traído pela sua mulher e que após algum tempo se resigna, abusando do
seu poder, tendo casos com as empregadas da sua quinta em Palmela,
quinta onde recebia Salazar para orientações de como governar o país e
que acaba num lar de idosos, na sua fase de decadência, depois de se ter
isolado durante o período da revolução na sua quinta lutando contra a
ameaça comunista, colocando todos os seus empregados na rua. Tem dois
filhos: João, fruto do seu casamento, que cresce desamparado e medíocre,
e Paula, nascida da aventura com a cozinheira e que é dada aos cuidados
de uma viúva. Mas é tão pouco para dizer do que este livro trata, porque
cada personagem, isto é, cada voz que vem falar, traz consigo outras
histórias paralelas, uma vez que abordam, em constantes analepses,
vivências passadas e presentes, entrelaçando-se com o que disse a
personagem anterior e o que dirá a personagem que a seguir vem falar. As
vozes mais presentes, no entanto, são do ministro Francisco, da sua
Governanta Titina, do filho João e da filha Paula, e também da sua
amante Milá. Todas estas personagens trazem consigo outras vozes que
enriquecem não uma trama mas a vivência humana e o estado psicológico
destas pessoas que atravessaram um momento conturbado da nossa história
recente. Nota a salientar é que estas vozes, estas vivências e
finalmente estas pessoas pretendem ser a voz de uma facção da sociedade
desse momento histórico. Como disse o autor, o livro “é visto sempre
pelas pessoas que estão todas de um lado só”, ou seja o “retrato daquilo
que se chama direita visto pela própria direita” não havendo qualquer
“personagem revolucionária”, mesmo incluindo as personagens que são mais
pobres, os subordinados do ministro, a viúva que toma conta da filha
bastarda, a mãe da amante, etc.
O humor, não sendo uma característica exclusiva deste livro uma vez que
está presente em praticamente toda a obra de Lobo Antunes, faz com que
O Manual dos Inquisidores tenha uma faceta alegre, algumas vezes
assumindo a caricatura para desanuviar possíveis tensões na narrativa.
Não há vilões e heróis: comovemo-nos com a ternura do ministro carente
do amor da sua mulher, vivemos a angústia do filho na sua solidão, do
seu grito mudo, da sua frustração por ser manipulado, sorrimos com a
ambição medíocre da filha depois de tomar consciência de quem é o pai,
condoemo-nos do amor silencioso da governanta pelo seu patrão, rimos das
atitudes mesquinhas das personagens face às circunstâncias. São todas
estas personagens pessoas, de osso carne sangue e nervos, capazes de
ternura e atrocidade, de amor e violência, de piedade e indiferença para
com os outros.
É um livro rico em fabulações, imagens e metáforas de toda a ordem que
faz a delícia do leitor que só tem a ganhar com a sua leitura. Porque
aprende. Definitivamente aprendemos a conhecermo-nos ao lermos António
Lobo Antunes. Somos nós que lá estamos, antes e depois deste livro.
José Alexandre Ramos
25.04.2008
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LN
Foi o primeiro livro do António Lobo
Antunes que li, e achei o universo do escritor fascinante.
O que me pareceu mais marcante, o que
melhor caracteriza a escrita do autor, são as suas descrições muito
violentas dos factos e das situações, descrições cruéis que incomodam o
leitor, e que nos levam a interrogarmo-nos e a tentar entender estes
personagens.
O Livro é composto por uma sequência
de relatos e testemunhos dos diferentes personagens que intervêm na
"história" principal que gira em torno da vida do Ministro de Salazar
(Francisco) e de todos os personagens que passam pela vida da família, a
mulher (Isabel), o filho(João), a governanta, a cozinheira, a filha , o
caseiro, o motorista. Estes diferentes relatos dos acontecimentos vistos
por a cada um dos personagens, torna a visão dos acontecimentos pelo
leitor múltipla e revela muito sobre as características de cada
personagem. Este permanente confronto de visões diferenciadas dadas
pelos personagens permite uma visão geral dos acontecimentos e da
situação social e politica que é o cenário que atravessa todo o livro.
A história passa-se ao longo de todo
o período de ditadura com descrições impressionantes da violência da
Policia Politica (PIDE), e da morte do general Humberto Delgado. Mas
também do período pós revolução de abril com as mudanças e consequências
que tiveram na vida das personagens.
Outra das grandes características do Lobo Antunes é o seu
fantástico sentido de humor, e que percorre todo o livro utilizando uma
grande ironia, fazendo caricaturas das personagens. É uma grande visão
da sociedade portuguesa, uma imagem muito profunda da segunda metade do
século vinte português. Penso que o que a obra de ALA representa hoje,
será muito semelhante ao que representa a obra de Eça de Queiroz para o
final do século XIX, é um grande observador da realidade, um grande
cronista de costumes, e que sintetiza muito bem em algumas personagens
certos "tipos" sociais marcantes do nosso tempo.
citado de
Leitura Partilhada
15.04.2008
topo

Manuel
Barata
O Manual dos Inquisidores
ou as misérias do estado novo
O MANUAL DOS INQUISIDORES, de António Lobo
Antunes, é um romance que surpreende pela quantidade inusitada de
narradores. Constituído por vinte e nove capítulos, a que o autor ora
chama “comentário”(14) ora “relato” (15), sendo cada comentador e cada
relator um narrador. As reincidências ocorrem nos chamados relatos: João
(3), Titina (3), Paula (3), Milá (3) e Francisco (3). No tocante a
comentários, não há reincidências. Os relatores antes enumerados são o
filho (de Francisco e Isabel, a legítima), a governanta, a filha (de
Francisco e da cozinheira), a amante de Francisco e o próprio Dr.
Francisco. Toda a narrativa gira, por conseguinte, à volta deste Dr.
Francisco, um prócere do chamado salazarismo e das pessoas que lhe estão
mais próximas A inclusão de Titina no grupo dos relatores, compreende-se
pelo facto de ela ser muito mais que uma mera governanta. D. Albertina
é, com efeito, aquela que preenche o lugar deixado vago por Isabel,
prodigalizando afecto ao filho e ao pai. Nomeadamente àquele, que ela
considera seu filho. A inclusão de D. Albertina na categoria dos
relatores, explica a exclusão de Isabel.
As narrativas com vários narradores não constituem novidade. Já nos
finais do séc. XVIII, Choderlos de Laclos, nas suas celebérrimas Les
Liaisons Dangereuses (1781), embora usando o género epistolar, construiu
uma longa narrativa, na qual os autores de cartas também são muitos, mas
sobressaindo largamente os protagonistas, Valmont e Marteuil. Em GENTE
FELIZ COM LÁGRIMAS, João de Melo, autor coetâneo de António Lobo
Antunes, institui uma quantidade notável de narradores, para nos dar,
igualmente, uma extensa e bela obra de ficção narrativa. Estes são,
todavia, apenas dois exemplos que me ocorrem enquanto escrevo.
Esta polifonia extremada, que é indubitavelmente importante sob o ponto
de vista técnico-narrativo, que os universitários tanto apreciam, é-o
ainda mais no que concerne à matéria narrada e a uma relação que se me
afigura óbvia: história/História. Neste romance do autor de A MORTE DE
CARLOS GARDEL são narradas, em simultâneo, duas histórias: a do Dr.
Francisco, que fora director-geral da Pide e depois ministro do Dr.
Salazar, que há-de ficar a ser ministro toda a vida, como se ser ou ter
sido ministro de Salazar fosse um cargo ou título para o resto da vida;
a do país, governado por Salazar, primeiro, e por Marcelo Caetano,
depois, onde pontificavam aventesmas como esta personagem desta ficção antunesiana
Ainda relativamente ao mais alto cargo que terá desempenhado, a questão
não é completamente esclarecida. A mãe de Sofia, numa daquelas inúmeras
analepses, fala, com ironia, do tempo em que teria sido secretário de
Estado; porém, os empregados do próprio e os funcionários do Estado com
os quais se relaciona, nomeadamente o major, tratam-no sempre por
ministro. Esta ambiguidade remete-nos para a forma anormal como o poder
de Estado era exercido, onde tudo gravitava à volta do Príncipe e do seu
círculo de amigos, sendo pouco relevante o cargo. No reino do puro
arbítrio, este Dr. Francisco mandava espancar, metia e tirava pessoas da
prisão e podia enviar para Cabo Verde, quem lhe aprouvesse.
Numa narrativa com tantas vozes e personagens, convém desde já deixar
esclarecido
que todos os relatores são personagens principais. Seguindo a ordem do
texto: João, Titina, Paula, Milá e o próprio Dr. Francisco. Esta
personagem, sempre presente ao longo dos relatos e comentários, é a
primeira das principais e aquela à volta da qual se estrutura toda a
intriga. Isabel também poderia ser incluída neste grupo de personagens;
porém, o autor tê-la-á excluído pelas razões já aduzidas. Abandonou
Francisco e o filho, trocando-os por Pedro, este, que, mais tarde, há-de
ser o responsável pela destruição do casamento de João e pelo
desaparecimento da quinta de Palmela. O comportamento adúltero de
Isabel, que nunca quis responder à pergunta sacramental deste romance de
António Lobo Antunes “Tu gostas de mim não gostas Isabel?”, há-de ter
repercussões na vida de Francisco e das mulheres da quinta (a cozinheira
e Odete), de Paula e de Milá, nomeadamente. Em suma, Isabel, para quem
gostar ou não gostar não tinha qualquer significado, é a grande
responsável pelo comportamento animalesco e louco de Francisco, que
nunca conseguiu ultrapassar, num tempo de pensamento único e de
princípios muito rígidos, o facto de a mulher o ter traído. É curioso
notar também como aquilo que era importante para Francisco, não fazia
qualquer sentido para Isabel: gostar.
HISTÓRIA(S)
De uma forma linear, a história deste romance de Lobo Antunes
poder-se-ia resumir assim, como se se tratasse de um conto popular. Era
uma vez um ministro e amigo de um Príncipe muito importante, que casou
com uma senhora chamada Isabel. Levou-a para a sua quinta de Palmela,
onde tinha governanta, cozinheira, caseiro, tractorista e outros
trabalhadores. Cedo, a dita senhora se fartou da vida da quinta e do
senhor da quinta, que começa a enganar com um tratante de nome Pedro,
homem poderoso devido aos seus negócios. Do casamento do ministro com D.
Isabel nascera entretanto um menino, de nome João, que é criado sem os
cuidados da mãe e do pai.
A vida do casal, que nunca conhecera momentos de paixão, foi-se
deteriorando, deteriorando, até que D. Isabel decidiu sair da quinta,
abandonando o marido e o filho de tenra idade. Este cresceu com os
cuidados e o afecto da governanta da casa, que se chamava Albertina. O
pobre marido enganado pede a intervenção do chefe da polícia secreta do
Príncipe, mas é aconselhado a não levantar ondas, porque o amante da
senhora era homem de muito poder económico e financeiro e não podia ser
molestado. Contrariado, o ministro acata a decisão do Príncipe, que lhe
é transmitida pelo chefe da polícia secreta.
Daqui em diante assiste-se à degradação moral continuada do senhor da
quinta de Palmela, que exerce o seu poder de uma forma despótica,
nomeadamente no que concerne à sexualidade, onde predomina a mais pura
das animalidades. Convém não esquecer que é o veterinário que assiste
aos partos. Da relação do senhor da Quinta com a cozinheira nasce Paula,
que é criada em Alcácer do Sal, longe dos progenitores, porque as
aparências assim o exigiam.
O grotesco Dr. Francisco, no entanto, nunca esquece Isabel. E arranja
mesmo uma namorada, a quem põe casa como se dizia então, e tenta que
esta seja um duplo de Isabel. Através deste “arranjinho”, demonstra-se
não só a arbitrariedade do poder, mas também o modo como se utilizavam
abusivamente os meios do Estado, para que uma eminência do regime
montasse o seu teatro. Milá chega a vestir roupas de Isabel e acompanha
o Ministro a um encontro com Salazar, no forte de S. Julião.
Abreviando: o tempo passa e acontece o 25 de Abril. O universo de
Francisco vai ruir como um baralho de cartas. Envelhece e é internado
num lar, onde acaba por morrer. O casamento de João desfaz-se e a Quinta
dá lugar a uma urbanização muito lucrativa para Pedro, o amante de
Isabel. Paula ainda tenta ser herdeira de coisa nenhuma e João junta-se
com uma empregada do Lar onde está internada D. Titina. Um fim muito
triste, como diria, a rematar, o contador popular.
A QUINTA
A quinta é, por sinédoque, Portugal. O Dr. Francisco é o seu dono e nela
exerce um poder despótico, que só foi desafiado por Pedro e Isabel.
Naquele microcosmo, o proprietário é a Lei e o Direito. É amigo de
Salazar e faz na sua propriedade o mesmo que o amigo faz ou permite que
se faça no país. Traído pela mulher e impossibilitado de se vingar por
razões de Estado, abusa sexualmente das mulheres da quinta, nomeadamente
de Odete, a filha do caseiro, que é pouco mais do que uma criança.
“Quietinha rapariga” há-de repetir Francisco inúmeras vezes, nos
estábulos da quinta e contra as manjedouras. É assim como que um direito
de pernada, mas com cheiro a urina e excrementos.
NOTAS FINAIS
A curiosidade maior deste romance do autor de Cus de Judas residirá, em
minha opinião, no magistral tratamento do tempo, ou seja, no uso das
anacronias, um incessante vaivém entre o presente da narrativa e a
memória de cada narrador, que baralham qualquer leitor menos preparado.
As personagens, medíocres pela natureza das coisas, tendo sobrevivido ao
grande naufrágio, com um pé no passado e outro no presente, apresentam
marcas de profundos traumatismos, que as impossibilitam de compreender o
presente. Dir-se-ia que o universo diegético é tão louco e perverso como
perverso e louco foi o regime de Oliveira Salazar, que Lobo Antunes
caricatura com imensa mestria.
Numa nota final, direi que algumas das personagens são totalmente
inverosímeis, nomeadamente Titina que, apesar de ser governanta de um
político amigo e ajudante do ditador de Santa Comba, não tinha que ser
entendida em botânica. Num país de hortênsias, uma criada a falar de
hidrângeas, francamente!
POST SCRIPTUM – Esta abordagem, necessariamente incompleta, fica a
dever-se a questões extraordinárias da minha vida pessoal. Queria-a mais
elaborada e minuciosa, porque considero O MANUAL DOS INQUISIDORES o
melhor romance do autor. Porém, como não tenho mais tempo disponível
para esta obra, deixo aqui o resultado despretensioso da minha leitura.
por Manuel Barata
em
Musica Maestro
12.01.2006
topo

Matilde Ferreira Neves
Comentário a O Manual dos Inquisidores
«(...) os operários da fábrica que discursavam
na rua a tratarem-nos por camaradas, a prometerem-nos casas de graça, a
afirmarem que éramos livres e eu pensei
- Livres de quê?
já que a miséria permanecia a mesma só que com mais gritaria, mais bêbedos e
mais desordem por não haver polícia» - Eis o retrato do pós de 25 de Abril que
Lobo Antunes nos desenha em traços de quase caricatura no seu livro O Manual
dos Inquisidores.
Uma obra que nos fala acerca do fascismo vigente antes e mesmo depois do 25 de
Abril cuja narração é feita por personagens que se sucedem e alternam, que se
revelam ao serem inquiridas por um narrador incógnito (trata-se, no fundo, de
um romance eleborado pelas próprias personagens). O autor trabalha este
romance no sentido de torná-lo, de algum modo, intemporal, constituindo uma
amálgama do ontem e do hoje, apresentando-nos um elenco de tipos sociais que
ainda persiste nos nossos dias, na tentativa de mostrar-nos que, se calhar, a
sociedade não terá evoluído tanto como as pessoas o pretendem.
Temporalmente situado entre os anos 60 e 70, o Manual dos Inquisidores
relata-nos as relações de poder de um ministro de Salazar, à volta do qual
girará a própria narração do livro. Ministro que sendo cruel, é também capaz
de amar, que sendo duro, é também carente, que abandonado e traído pela
esposa, tentará reencontrá-la em outras mulheres, ora de forma agressiva e
máscula («- Faço tudo o que elas querem mas nunca tiro o chapéu da cabeça para
que se saiba quem é o patrão.»), ora de forma terna («(- Isabel
o meu pai em segredo, de lábios contra o chão, de ventre contra o chão
- Isabel
o meu pai quase terno
- Isabel)»). - Pinta-se, no decorrer da obra, o retrato de um homem prepotente
e iludido pelo próprio poder, confrontado, no limite, com a solidão e com os
seus fantasmas pessoais, que acabará derrotado pela idade e pela senilidade a
ela inerente, vencido por uma obssessão extrema contra os comunistas, que o
seu filho saberá descrever: «o meu pai que um ano depois da revolução teimava
em esperar os comunistas (...)
- Já não há nada que me consigam tirar».-Um ministro despojado do amor e do
poder, que se transformará numa sombra apenas, exilado numa clínica onde virá
a perecer.
O Manual dos Inquisidores é um livro que reflecte o poder e os seus abusos na
época salazarista(«aquilo que um protegido do professor Salazar afirma, por
mais estranho que seja, ou é verdade ou os jornais vão garantir amanhã que é
verdade o que equivale ao mesmo, e se a gente os contraria dá com os costados
na polícia, de farol na cara e um chefe de brigada a convencer-nos com estalos
evangelizadores, de que lado se acham o interesse do país, a virtude e a
razão.»); no qual a gente pobre, conformada, apesar da miséria, não sentia
pena nem raiva, nem nada, a não ser algum conforto por ainda persistir.
Uma viagem alucinante, ao real que nos transtorna e que, por vezes, nos leva
ao riso: «e após a morte do meu pobre ofereceram-me um pobre mais novo que
durasse mais tempo, saudável, ainda sem tosse, baptizado e com as vacinas em
dia, aconselhado pelo senhor prior por não ter vícios nem ser capaz de me
faltar ao respeito, que tive de mandar embora no Natal seguinte e de me
queixar da sua falta de educação nas noelistas porque caí na asneira de lhe
dar dez escudos e ao recomendar-lhe
- Agora veja lá não gaste isso tudo em aguardente
respondeu-me malcriadíssimo a virar e a revirar a moeda
- Claro que não menina claro que não fique descansada que vou direitinho ao
stand e compro um Alfa Romeo»).
Relações de poder frustradas, relações amorosas falhadas, que deixam entrever
as carências mais diversas («e no entanto eu gostava de si pai, gostava de si,
não fui capaz de dizer-lhe mas gostava de si», «o meu pai que não me recordo
de conversar comigo, me dar um beijo, me pegar ao colo»).
Um romance real e humano que, apesar de tudo, termina com o ministro
esperançoso, cuja frase inacabada que fecha o livro nos relembra, talvez, que
fica sempre algo por dizer...
por Matilde Ferreira Neves
citado
daqui
[não datado]
topo

Patrícia Camargo
Ascensão e queda: a questão
da traição na obra O Manual dos Inquisidores de António Lobo Antunes
"O autor é o que dá à inquietante linguagem
da ficção, as suas unidades, os seus nós de coerência, a sua inserção no real".
(Michel Foucault, A ordem do discurso, 1999)
1
O significado do texto literário é algo construído ou produzido, em um
processo de interação entre duas partes: o texto e o leitor. O papel do leitor
é seguir as instruções ou orientações do texto e produzir o seu sentido que
não representa algo, mas possui o caráter do acontecimento. O leitor percebe o
texto de uma maneira global. A experiência da leitura não se dá apenas pelo
texto em si, nem só pela subjetividade do leitor. Trata-se da junção destes
dois fatores, o que inicia o processo de construção de sentido, no texto.
Segundo Barthes(apud COMPAGNON, 1996), o leitor deveria encarar o ato da
leitura como uma investigação, uma busca por pistas para desvendar o texto, já
Iser(apud COMPAGNON, 1996) procura pensar a leitura como uma viagem, ou seja,
cada nova leitura possibilita o leitor verificar novos detalhes até então
despercebidos, pois a cada viagem podemos mudar nosso modo de construir nossa
visão sobre o objeto estético.
Tendo em mente as abordagens teóricas acima citadas, podemos notar que os
procedimentos de escrita utilizados por António Lobo Antunes apontam para uma
estrutura fragmentada, estilhaçada, numa construção de base contemporânea,
possibilitando assim uma grande gama de leituras, pois o autor procura
construir seus personagens em estado de relato, por meio de representações
mnemônicas dos discursos, articulados como texto, com a finalidade de
interrogar/denunciar a ficções públicas portuguesas.
Nesse sentido, o tema central dessa obra aponta para a questão do poder, seja
a manutenção do poder, o desejo de poder, todas as nuances referentes à
microfísica do poder, sempre numa dupla perspectiva: no plano das questões
"emocionais" das personagens, bem como, no plano da retrospectiva histórica
portuguesa (denúncia das ficções públicas construídas no período ditatorial do
salazarismo).
Os personagens ao longo da trama procuram relatar suas imagens mentais
rememorando o tempo passado e mesclando os vários momentos de suas vidas,
tanto em relação aos momentos de ascensão como os de queda em relação ao
poder, criando assim imagens sobrepostas que formam uma estrutura
caledoscópica. Nessa teia de discursos que ao longo da trama se adensam cada
vez mais, podemos elaborar um número vasto de análises partindo dos relatos de
qualquer um desses personagens. Uma possível leitura da obra é aquela que se
refere à questão da traição ao poder, ficando bastante evidenciada em relação
aos relatos referentes à personagem Isabel e dos relatos que fazem referencia
ao caso do General Humberto Delgado.
Na perspectiva da denúncia da ficção pública do período ditatorial
salazarista, Lobo Antunes articula os discursos das personagens sempre com um
olhar retrospectivo sobre os acontecimentos históricos entrelaçados em suas
próprias memórias afetivas. Logo, o caso ocorrido com o General Humberto
Delgado é apresentado ao leitor por meio de um jogo entre elementos do real
(fatos históricos) e uma construção ficcional, ou seja, através do relato do
personagem Tomás, o motorista do ministro Francisco, que indagado por um
suposto "interrogador", conta como esse episódio ocorreu.
De início Tomás se coloca numa postura de desconfiança procurando levar seus
relatos para fatos mais corriqueiros, demonstrando o profundo medo de falar
sobre questões políticas, que ainda pairava em Portugal, tempos depois da
derrocada do governo salazarista. Mas o desejo de expurgar as dores sobre o
fato ocorrido leva o personagem a narrar todo o horror promovido contra
Humberto Delgado naquela noite fatídica.
Observa-se que Lobo Antunes ao criar esse jogo entre ficção e história, aborda
um ponto crucial quando se pensa nas relações de poder, a questão do respeito
ao poder, e a falta dele sendo encarada como traição. É notório que o General
Humberto Delgado numa famosa entrevista realizada em maio de 1958 no café
Chave de Ouro, quando lhe foi perguntado que postura tomaria face ao
primeiro-ministro (Presidente do Conselho dos Ministros) António de Oliveira
Salazar, respondeu com a célebre frase "Obviamente, demito-o", logo, esta
frase incendiou os espíritos dos agitadores comunistas de então que o apoiaram
e o aclamaram durante a campanha.
Salazar viu na pessoa de Humberto Delgado uma ameaça ao regime ditatorial, e
com o caso do paquete "Santa Maria", que chamou a atenção do mundo para os
problemas da ditadura portuguesa, Delgado enfureceu ainda mais o
primeiro-ministro que primava por lançar mão de que a pátria portuguesa era um
império do Minho ao Timor, buscando assim inculcar na mente do povo português
ideias que não correspondiam à realidade por eles vivenciada.
Para Salazar, o ato de descredenciar os valores por ele estabelecido na
sociedade portuguesa de então, realizado por Humberto Delgado, era algo
encarado como uma traição máxima, pois não só primava por causar uma ameaça ao
poder, mas também por desqualificar a pátria, uma humilhação ímpar, para um
ditador que tinha no discurso de império sua máxima. Sendo assim, Delgado
representava uma ameaça a ser extirpada, pois desmistificou os valores falidos
do governo, causando na figura de Salazar uma profunda humilhação frente ao
mundo. Logo, a sentença de morte veio apenas concretizar algo que já era de se
esperar. Na narrativa, especificamente no XXIII relato, o da personagem Milá,
há a descrição de um encontro entre o ministro Francisco e Salazar, onde os
dois tramam o que fazer com o General Delgado:
major de torrada na mão, que mal o senhor ministro se afastou a combinar
com o professor
Salazar o destino do general
(- Mata-se prende-se mata-se é melhor matar-se mata-se)
2
Na maioria dos casos, das traições políticas, a punição para o traidor é a
morte, não foi diferente no caso de Humberto Delgado, em fevereiro de 1965, na
fronteira espanhola em Villanueva del Fresno, o general foi executado em uma
emboscada a mando de Salazar. Porém, esse foi um momento decisivo para a
derrocada do governo ditatorial português.
No transcorrer da trama de Lobo Antunes, vem à tona uma outra história de
traição, no caso a traição conjugal da personagem Isabel em relação ao
ministro Francisco. O leitor tem contato com os fatos ocorridos através das
vozes de vários personagens que de alguma forma entraram em contato com esse
caso de traição conjugal. E podemos observar como essas duas traições guardam
muitas coisas em comum.
Em relação à traição executada pela personagem Isabel, temos de um lado a
presença obscura da imagem da mãe nos relatos do personagem João, já que ela o
abandou ainda muito pequeno, de outro vemos o discurso da governanta Titina
que observava a questão de uma outra ótica, pois presenciou o transcorrer dos
acontecimentos com uma certa proximidade. Porém, é preciso levar em
consideração que Titina tinha uma motivação amorosa para com Francisco, logo,
suas observações sobre Isabel deixam transparecer essas emoções, não são
palavras de modo algum inocentes, esses relatos estão contaminados pelos
desejos de Titina, ou seja, é a visão da personagem sobre o assunto.
No relato X, do veterinário Luís, há algumas pistas esclarecedoras sobre a
questão da humilhação pela qual Francisco passou depois da traição de Isabel,
vejamos:
E ainda que os matasse a todos os desenhos e as palavras lá estavam a
gritarem de troça furando a camada de cal
O MINISTRO É CORNUDO
E como é que se faz para apagar a humilhação, o ultraje, (...) proibiu
todos de conversarem fosse com quem fosse.
3
Para uma pessoa importante, um ministro do
governo, amigo próximo do primeiro-ministro Salazar, passar por uma humilhação
desse porte era algo extremo. Se no momento em que casou com Isabel, Francisco
julgou estar vivendo seu momento de apogeu, tendo um cargo de confiança junto
ao governo, uma família feliz, uma quinta bem cuidada, ou seja, um prenúncio
de uma vida cada vez mais próspera e bem sucedida, com a traição de Isabel sua
derrocada começa a se delinear. Tanto assim, que é justamente a partir desse
momento que Francisco começa a exercer toda sua tirania em relação aos seus
subordinados (os constantes abusos sexuais da empregada e a da filha do
caseiro, por exemplo, sempre permeados da frase: "Faço tudo o que elas querem
mas nunca tiro o chapéu para que saiba quem é o patrão"
4)
sugere a forte necessidade de auto-afirmação por parte do personagem.
Na tentativa de sanar a dor da ausência da esposa, Francisco tenta criar uma
"outra" Isabel através de Milá, e a moça por uma questão financeira se vê
obrigada a ficar subordinada aos caprichos do ministro. Milá segue num
processo de despersonalização, de perda de identidade, pois Francisco
procurava estabelecer um sistema de manutenção do poder, obrigando a moça a
vestir-se e agir tal qual Isabel. Quanto a essas formas de organização do
poder, Michel Foucault nos diz:
Mas quando penso na mecânica do poder, penso em sua forma capilar de
existir, no ponto em que o poder encontra o nível dos indivíduos, atinge seus
corpos, vem se inserir em seus gestos, suas atitudes, seus discursos, sua
aprendizagem, sua vida quotidiana.
5
Nessa luta pela manutenção do poder Francisco não poupou esforços, ocorre que
a vergonha e a humilhação acarretada pela traição fizeram com que ele partisse
em uma luta incessante por encontrar Isabel, a fim de entender o motivo da
traição. Observamos que ao encontrar a esposa vivendo em uma condição social
bem inferior aquela proporcionada por ele, Francisco se desespera, pois não
entende os reais motivos daquela situação. Ele só consegue pensar que ela
jamais o amou, e que foi um amor por outro homem que a fez se sujeitar àquela
situação.
Esse caso só fica de fato esclarecido no relato de Isabel, onde ela mostra
claramente porque resolveu abandonar o lar e partir. As circunstancias que
uniram Isabel a Francisco foram as mais conturbadas possíveis, por conta disso
ela nunca se sentiu inserida numa relação familiar bem estabelecida, jamais
sentiu um afeto maior por seu marido, recebia por parte dele uma cobrança
excessiva em relação aos seus sentimentos. Francisco repetia exaustivamente:
"Gostas de mim não gostas Isabel?" 6.
E essa cobrança extrema, doentia, essa exigência de amor era algo insuportável
para personagem.
Isabel não compreendia essa insistência, pois seu pai e seu filho jamais
cobraram isso dela, por isso tinha uma enorme vontade de perguntar: "A que
chamas gostar Francisco?" 7,
porque o conceito de amor de ambos era bem divergente. Tanto assim, que no
relato de Isabel percebemos que as intenções em relação a Pedro não foram
motivadas por um "amor maior", o abandono do lar se deu por conta de uma busca
por um modo de sentir-se livre. Ela sabia que seu relacionamento com Pedro
também não passava de uma farsa tal qual o casamento com Francisco. Podemos
observar isso na seguinte passagem: "Eu que não lhe pedira nada, que não
queria nada, a quem não apetecia nada salvo estar sozinha sem homens a
perseguirem-me com seus interrogatórios sem sentido"
8.
Ela afirma também:
Foi para ficar sozinha que aceitei o apartamento em Lisboa, uma sala, uma
marquise onde não me inquietavam, não me aborreciam, não me visitavam nem me
tocavam nem me faziam perguntas, onde me deixavam em paz.
9
O desejo de Isabel era ser livre, ser dona de sua própria vida, não ter de dar
satisfações de seus sentimentos. Em tempo algum ela demonstrou querer ferir os
sentimentos de Francisco, mas como não havia diálogo entre as partes, ele
acreditava na traição pura e simples e a punição para os traidores, assim como
no caso do General Humberto Delgado, Isabel também é punida com a morte.
Pensando no sentido dicionarizado do conceito traição, que vem do latim "traditione",
significando conduta ou defeito de quem, perfidamente, entrega, denuncia ou
vende alguém ou alguma coisa ao inimigo, consubstanciando-se em infidelidade,
perfídia, deslealdade. Traidor, por outro lado, vem do latim "traditore", ou
seja, aquele que atraiçoa, sendo perigoso com aparência de seguro. O traidor,
assim, é sempre insidioso, disfarçando o seu escopo através da perfídia, do
estratagema. Nesse caso, os dois casos guardam enormes semelhanças: tanto
Isabel, quanto General Delgado ambos tinham um desejo de liberdade frente a
formas opressoras de poder. Nessa busca por serem livres enfrentaram o poder
sem medo, sendo por isso considerados traidores.
Observamos então que depois dessas "traições" de Isabel e Humberto Delgado,
eles também sofreram uma forma de "traição mortal" por parte de seus algozes,
e em muito pouco tempo depois tanto Francisco como Salazar passaram da
ascensão à queda total por conta desses atos.
Ou seja, António Lobo Antunes consegue criar uma construção literária que
integra perfeitamente essa dupla perspectiva, tanto no plano das questões
emocionais das personagens, como na retrospectiva histórica portuguesa,
trabalhando a questão da memória de um modo singular, assim como afirma
Andréas Huyssen:
Não requer muita sofisticação teórica ver que todas as representações -
sejam na linguagem, na narrativa, na imagem ou no som gravado - estão baseadas
na memória. Representação sempre vem depois, embora alguns meios de
comunicação tentem nos fornecer a ilusão da "pura presença". Mas ao invés de
nos guiar até alguma origem supostamente autêntica, ou nos dar um acesso
verificável ao real, a memória, até mesmo, ou especialmente, por vir sempre
depois, é em si baseada na representação. O passado não está simplesmente ali
na memória, mas tem de ser articulado para se transformar em memória.
10
E assim, podemos constatar que esse processo de
transformação/articulação do passado em memória é algo muito explorado por
Lobo Antunes em sua construção ficcional. Sendo suas obras construções
contemporâneas que obrigam o leitor a empreitar sempre novas "investigações",
como prega Barthes, e sair de sua condição de leitor passivo, como advoga Iser
, ou seja, estimulando o leitor a embarcar nessa "viagem" que nos faz mudar de
visão a cada nova leitura.
Notas
1 FOUCAULT, Michel. A Ordem do
Discurso. São Paulo: Edições Loyola, 1996, p. 97.
2 ANTUNES, António Lobo.O Manual dos Inquisidores. Lisboa: Dom Quixote,
1997, p.336/337.
3 Op. cit., p. 163.
4 Op. cit., p. 13.
5 FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder, 3 ed. Rio de Janeiro: Edições
Graal, 1982, p. 108.
6 ANTUNES, António Lobo.O Manual dos Inquisidores. Lisboa: Dom Quixote,
1997, p.396.
7 Op. cit., p. 397.
8 Op. cit., p. 400. (Grifo próprio)
9 Op. cit., p. 400.
10 HUYSSEN, Andréas. Memórias do Modernismo. Rio de Janeiro: Ed. UFRJ,
1997, p. 14.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ANTUNES, António Lobo.O Manual dos
Inquisidores. Lisboa: Dom Quixote, 1997.
COMPAGNON, Antoine. O demônio da teoria: literatura e senso comum. Belo
Horizonte: UFMG, 2003.
FOUCAULT, Michel. A Ordem do Discurso. São Paulo: Edições Loyola, 1996.
FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder, 3 ed. Rio de Janeiro: Edições Graal,
1982.
HUYSSEN, Andréas. Memórias do Modernismo. Rio de Janeiro: Ed. UFRJ, 1997.
por Patrícia Camargo
citado de
Revista Critério
[não datado]
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